Close

23 de maio de 2017

A Parca

Um dia, tempos atrás, a Parca veio me buscar, mas eu fui mais rápido. Me escondi e ela passou longe sem me encontrar. Desde então transcorreram anos, séculos, milênios. Não sei quanto tempo faz que nossas orgulhosas cidades foram varridas da face da Terra, agora convertida num grande, imenso deserto. Os poucos seres que ainda resistem perambulam por aí e habitam escuras cavernas frias, alimentam-se de insetos ou de vísceras de cadáveres insepultos e pouco se diferenciam dos animais que outrora pastavam pela superfície. Dormem pouco, assaltados pela fome e pelo instinto de sobrevivência. Andrajos imundos constituem seu único patrimônio. Não conversam, nem mesmo quando, por acaso, se encontram em alguma esquina do planeta. Não têm o que falar. Eu mesmo me esquivo quando vejo, lá longe, alguém se arrastando, cavucando o chão em busca de algo para engolir. Fui apunhalado, socado, mordido, lancetado, mas minhas feridas insistem em cicatrizar, e assim continuo minha existência interminável, respirando esse ar infecto e lutando, lutando, lutando. Num movimento contrário ao que fiz antes, há tempos que não cesso de buscar a Parca e nela descansar finalmente, mas agora é ela quem se esconde de mim.

 




Tags:, ,

23 de maio de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos deserto, existência, Parca

               
              
            
                

Deixe um comentário