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10 de julho de 2020

A pescaria

Voltou para casa desolado, a madrugada já quase no fim. Não teve sorte aquela noite.

Tinha saído de casa na tardinha anterior, disposto a pescar o fio de uma história, algo para costurar e dar sentido às palavras que se acumulavam em sua cabeça e que transbordavam, borbulhavam, dançavam perdidas sem uma linha que as unisse. Eram muitas palavras, tantas! Urgia que houvesse um fio condutor para que viessem à luz, pois só assim ele poderia encher as horas e as páginas em branco que tinha na frente dos olhos, e que o desafiavam. Passou a noite no mar. Sangrou as mãos, usou toda a sua força e mesmo assim não conseguiu que as ondas lhe devolvessem algo que prestasse. Voltou com a rede vazia, murcha, o retrato vivo de um homem que lutou quanto pôde contra a água, o vento e a maré. Só pescou um título de cinco palavras, “o velho e o mar”, que batucou na máquina de escrever assim que entrou em casa e escutou o chamamento da folha em branco. Depois dormiu, cansado e triste.

Horas mais tarde leu sem pressa aquelas palavras datilografadas no cabeçalho da página e só então entendeu: aquele título era imenso como o oceano. Deixou a história, ela mesma, como uma rede bem tramada, se estender sobre a água e se enredou nela. Escreveu, escreveu.

 




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