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30 de novembro de 2016

A planta suspeita

marijuana

Sou dono de um apartamento num bairro distante da cidade, cujo aluguel me rende uns trocados todo final de mês. Acabo de receber uma correspondência de lá, enviada pelo administrador do condomínio. O assunto da mensagem é curioso — Planta suspeita de seu inquilino — e o conteúdo me obrigou a penosos exercícios mentais de ponderação e sensatez: versava sobre o alerta que a faxineira fez à administração, informando que o locatário mantém na varanda alguns vasos com plantas que parecem maconha e que se eu, o proprietário, não tomar medidas, o imóvel poderá ser denunciado e invadido pela polícia.

Com os olhos parados na mensagem aberta na tela do computador, penso neste país onde a vida não vale um tostão furado, onde a cada dois minutos assassinam uma pessoa para roubar-lhe o celular, onde uma mulher é estuprada a cada dez segundos, onde as crianças brincam ao lado de esgotos abertos, onde a polícia mata mais que a guerra civil na Síria, onde qualquer pessoa tem livre acesso a armas de fogo, onde os políticos vivem num reality show circense em que brigam para perpetuar os próprios privilégios. Penso também nas plantas que meu inquilino cultiva na varanda, na faxineira que se incomodou com elas e no trabalho que o administrador teve para escrever e me enviar aquela mensagem.

Também penso na capacidade infinita que todo ser humano tem de ainda se espantar — ou não — com as coisas que acontecem neste mundo.

 




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30 de novembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos maconha, planta

              
            
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