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23 de setembro de 2019

À procura de mim

Perdi-me. Não sei quando me perdi. Não me lembro do dia nem da hora. Só sei que me desviei e fui por caminho desconhecido. Perdi-me. Não sei onde estou.

A última vez que me vi tinha 25 anos, estava sempre rindo e tinha certeza do que queria da vida. Depois a própria vida me fez perder-me. Errei o caminho, tomei atalhos, fui me distanciando de mim. Perdi-me.

Comecei por buscar-me no espelho, lugar que costumava frequentar. Chamei e esperei. Quem me atendeu foi um senhor sério, de cabelos brancos e óculos grossos. Parecia triste e doente, a pele amarelada e sem brilho, os olhos embaçados pela catarata. Disse-me que eu há muito tempo não passava por lá.

Pedi ajuda a Marilda. Ela certamente terá notícia de mim e tudo será resolvido. Liguei. Me viu por aí? Sabe alguma coisa de mim? Meu paradeiro? Me viu passando ou por acaso sabe onde estou? Nada, ela não sabia de nada. Respondeu que há muito não me via e que tinha sido melhor assim. Melhor assim “para os dois”, ela sublinhou na voz. Pediu que não ligasse mais se fosse para falar de mim, ela não tinha interesse nenhum nesse assunto, nem paciência. Desligou.

Carlos. Meu melhor amigo saberá de mim, como não? Me desculpe, a gente há muito tempo não conversa, ele parou de rir, deixou de ser companhia agradável. Eu me casei, logo tive filho, ganhei outras preocupações, minha vida mudou. Era um bom amigo, mas a gente se distanciou, sabe? Faz muito tempo que não o vejo nem sei dele. Não posso ajudar, me desculpe.

Fui para o Facebook, lá eu encontraria um rastro de mim, sem dúvida. Digitei meu nome, mas a foto que apareceu não era a minha. Eu nunca fui gordo ou tive sardas, tampouco era viciado em jogos de computador.

Nem em minha casa me encontrei. Percorri todos os cômodos, abri armários e gavetas, vasculhei estantes, fucei debaixo da cama, olhei fotografias. Nada. Nada de mim, nenhum sinal. Eu tinha desaparecido.

Estou preocupado. Não, estou desesperado! Não é possível que alguém desapareça assim sem deixar pegada. Ninguém passa por este mundo incólume, como se fosse transparente. Onde estão as minhas marcas, os meus vestígios?

Onde será que fui parar? Se alguém me vir por aí, por favor, eu rogo: avise-me que estou à minha procura.

 




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23 de setembro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos caminhos, perdi-me, procura

               
              
            
                

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