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30 de maio de 2019

A raiz da figueira

Dizem que, se alguém chora debaixo de uma figueira, a raiz cresce até o infinito, mas isso é uma coisa impossível. Na realidade, cresce até onde é necessário que cresça. Foi isso que aconteceu com a raiz da figueira do quintal de dona Amábile.

Dona Amábile era uma mulher idosa, tão idosa que, quando seu filho nasceu, nasceu sendo neto. Chamou-o Carlos. Como todos que têm esse nome, Carlos era inquieto e, assim que pôde, saiu de casa para ver o mundo, porque os que se chamam Carlos costumam nascer já com a ideia de sair para ver o mundo, da mesma maneira que os que se chamam Alexandre conquistam sonhos e as que atendem por Sofia são sempre sábias.

Carlos partiu e dona Amábile ficou mais velha e se curvou como a vara do bambu. Varreu para longe as folhas secas que teimavam em forrar o chão. Não é outono ainda, guarde sua ramagem, seja esperta, gritou ela para a figueira. Sentou-se à sombra da árvore e esperou o regresso que nunca viu. Chorou e as lágrimas sulcaram seu rosto e desceram e encharcaram a terra. Foi quando a raiz da figueira começou a crescer e a percorrer todo o quintal, passou por debaixo da cerca e seguiu rua acima, levantou o piso das calçadas, chegou até a venda do seu Jaime.

E saiu além do povoado, rumou para o norte e se estendeu longe, longe, onde vivem as pessoas que jogam sal nas raízes, esperando que sequem e não cumpram seu destino, que é o de crescer e avançar. Mas a raiz da figueira de dona Amábile chegou aonde deveria chegar: num campo de flores vermelhas, e rodeou o corpo de Carlos como se fosse um ataúde. Era um chamado e Carlos compreendeu. Voltou para casa, onde dona Amábile já não estava.

A raiz das figueiras cresce e cresce, não até o infinito, mas até onde é necessário que cresça.

 




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30 de maio de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos figueira, lágrimas, raiz

               
              
            
                

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