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29 de dezembro de 2016

A receita certa

— O que você pôs aí dentro?

— O de sempre: carvão, ferro, magnésio, potássio, enxofre, fel. Os ingredientes de sempre.

— A última vez ficou horrível, intragável. Alguma coisa desandou.

— É que eu perdi a receita. Desde então estou na fase de tentativa e erro. É difícil acertar as medidas.

— O que você cozinhou na semana passada era uma massa de carne, pele, pelos, cabeças e extremidades. Vi umas orelhas boiando na superfície, um asco, argh!

— É como eu lhe disse: perdi a receita e não me lembro das doses exatas. Com as proporções erradas dá nisso mesmo. É muito complicado.

— Complicado é pouco. Eu tive que jogar fora bem distante daqui, pra que ninguém visse aquela gororoba desagradável, incomível.

— Eu te agradeço por isso.

— E teve outro detalhe que você não percebeu. Eu não falei antes pra não te assustar.

— O que era?

— Aquela coisa que você preparou na semana passada tinha consciência.

— Não!

— Sim, acredite, é verdade. Tinha.

— Meu Deus! Se os diretores tivessem visto iriam me prender pelo resto da vida.

— Mas não se preocupe, já descartei aquela nojeira monstruosa num lugar bem longe. Joguei tudo naquele planeta azul, que é de difícil acesso e ninguém vai se dar ao trabalho de ir até lá. Fique tranquilo. E depois, com todo aquele oxigênio e a quantidade imensa de água, vai ser impossível que a coisa se reproduza, mesmo tendo consciência.

— Tomara que não, que alívio! Obrigado, você é um grande companheiro e amigo.

— Não precisa agradecer. Agora anda, tente acertar a receita. Talvez seja bom colocar um pouco de sódio, o que você acha? Ou zinco, ou então estrôncio. Dessa vez tem que sair tudo certo, procure não errar na mistura.

 




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29 de dezembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos consciência, mistura, receita

               
              
            
                

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