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30 de janeiro de 2017

A sopa

A sopa de legumes desidratados sonhava com a hora em que chegaria a ser o primeiro prato numa elegante mesa de dez comensais. Era o que dizia o seu sedutor e colorido traje de plástico amarelo: Deliciosa sopa caseira vegana. Serve até dez pessoas. No envelope, havia uma foto de uma linda sopeira transbordando de líquido saudável e saboroso. Assim a sopa ocupava suas semanas e dias, observando quieta, da estante de produtos vegetarianos, os clientes que passavam em sua frente conduzindo os carrinhos cheios de produtos outros. A sopa gostava de imaginar qual deles a levaria para casa e a transformaria na entrada de um jantar, apreciada por todos.

Era uma tarde fria quando um jovem de aparência desleixada pegou o envelope e o pôs no carrinho. Em casa, guardou-o na escuridão da despensa, junto a vulgares pacotes de macarrão, latas de molho de tomate e sacos de arroz integral. A sopa mantinha-se quieta, concentrada em não perder suas qualidades nutritivas e seu pronunciado sabor caseiro.

Poucas noites depois, o jovem, faminto e apressado, a escolheu, rasgou o envelope e a sopa pôde enfim se mostrar, sorridente e amigável. Ela espalhou seus ingredientes numa tigela de cerâmica e mal pôde esperar o início da preparação da iguaria em que iria se oferecer, generosa e quente, para o paladar apurado dos convidados do dono da casa. Um jorro de água fria da torneira e alguns minutos girando no prato do micro-ondas foi tudo o que ela, perplexa, experimentou desde que saiu do envelope. Ali estavam, fumegando e boiando na água, os pedacinhos de cenoura, cebola, vagem, batata inglesa, couve-flor e brócolis em promíscua combinação, atordoados e sem conseguirem distinguir muito bem onde estavam. O certo é que a sopa continuava na tigela de cerâmica e o sonho de inundar uma sopeira de porcelana, no centro de uma mesa posta com elegância, permaneceu o que sempre foi: um sonho.

Depois de apenas duas colheradas rápidas, tomadas ali mesmo na cozinha, em pé, diretamente da tigela, a sopa foi descartada no ralo da pia. O minuto de glória passou a ter outro dono: uma pizza congelada de atum e muçarela. A sopa, longe de ficar desanimada, sentiu que seu destino se cumpria quando se uniu ao grande mar de desperdícios multicoloridos que ia encontrando em sua viagem até o esgoto.

 




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30 de janeiro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos esgoto, jantar, legumes, sopa

               
              
            
                

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