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2 de julho de 2015

A surreal vida real em 4 esgares e 1 bocejo

o-grito_munchESGAR # 1: TEMPOS MODERNOS

Nosso trabalho consiste em introduzir esses cilindros na caldeira, esperar que ferva até 325,7 graus Celsius e, da pasta resultante, encher as formas de aço e introduzi-las no lado direito da máquina a vapor. Depois de 13 minutos e meio, recolhemos, pelo lado esquerdo, a pasta transformada em cilindros de vinte e dois centímetros de comprimento por dezoito e meio de largura; são cilindros rigorosamente iguais que, colocados em fila, são introduzidos na caldeira para serem fervidos até 325,7 graus Celsius. Trabalhamos em turnos – manhã, tarde e noite, todos os dias do ano, sem intervalo. Paramos para almoçar às 12h34.

 

ESGAR # 2: ESTRANHOS NO NINHO

Logo depois de decidirem viver sob o mesmo teto, Pedro e Liz deixaram de se falar. Nunca mais aquelas longas conversas de madrugada, os olhares ternos, os “eu te amo” sussurrados no ouvido entre taças de vinho e a voz de Nina Simone ao fundo. Acabaram-se os segredos compartilhados sob os lençóis, sem relógios ou rotina. Hoje eles são dois estranhos que compartem o mesmo apartamento. Tão estranhos que, outro dia, quando se encontraram no corredor a caminho do banheiro, se cumprimentaram, disseram seus nomes e combinaram um jantar logo mais à noite. Agora, perdidamente apaixonados um pelo outro, estão pensando em morar cada um na sua casa.

 

ESGAR # 3: TAREFAS URGENTES

Tarefas que um anjo caído deve realizar urgentemente:

– Arrancar as penas das asas, por mais dolorido que isso possa ser;

– Conseguir uma roupa decente para substituir aquela ridícula túnica tom pastel;

– Encontrar um trabalho compatível com suas habilidades: talvez como bombeiro ou trapezista, já que não tem medo de altura;

– Decidir a qual sexo deseja pertencer; se não é mais anjo, urge ter um sexo.

 

ESGAR # 4: O MUNDO AÍ FORA

Estou a cargo de uma tarefa interminável. Ontem, antes de dormir, comecei a baixar a persiana do quarto. Vagarosamente, sem fazer barulho. Depois de nove ou dez braçadas, compreendi que nunca ia acabar. A persiana descia diante dos meus olhos e num segundo desaparecia atrás da parede, para retornar pouco depois no alto. Alguma coisa indefinida fazia com que o rolo nunca chegasse ao fim, como se minha persiana, nesse movimento circular, alimentasse e desse fôlego ao universo. Como um motor, desconhecido e incompreensível.

Amanheceu. Ouço o canto dos pássaros e sinto o calor do sol. Meus braços estão dilacerados; minhas mãos, duras pelo trabalho incessante. Continuo na tarefa de baixar a persiana do meu quarto e não penso em parar. Que tipo de mundo pode haver aí fora que necessite de minha persiana aberta?

 

1 BOCEJO: SEM MAS

Você me olha, mas não me vê. Me ouve, mas não me escuta. Me fala, mas não me diz. Me mostra, mas não me ensina. Me quer, mas não me ama. Me vou. Sem mas.

 




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2 de julho de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos bocejo, esgar, surreal, vida real

               
              
            
                

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