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21 de fevereiro de 2020

A tristeza profundíssima

O melhor poeta de minha geração

foi internado num hospital psiquiátrico.

As enfermeiras, armadas de seringas curativas,

atormentam-no.

A cada vez que tem um verso na ponta da língua,

elas o imobilizam para que engula um comprimido

— e o verso junto.

 

O melhor cantor de minha geração

conseguiu emprego num call center

no turno da noite.

Ele segue o script dado pelo supervisor

e sempre atende as ligações

como se estivesse cantando.

Do outro lado da linha

o cliente furioso não percebe

o Dó Maior cheio de tristeza que sai de sua boca

quando diz “vamos estar providenciando seu pedido”.

 

O homem mais beato de minha geração

trabalha de forma clandestina matando jacarés.

O couro dos bichos é enviado por barco para o Senegal.

Também por barco chega o pagamento,

e por isso atrasa tanto, dizem os chefes.

 

O melhor matemático de minha geração,

quase morto de fome,

decidiu ser coach depois de analisar

as estatísticas e as probabilidades.

Outro dia sussurrou-me ao ouvido: “O Pi está errado”.

 

O melhor cozinheiro de minha geração

espreme laranjas e vende churrasquinho

num quiosque de praia.

 

A mais bela de minha geração

organiza a fila na entrada do museu.

Ainda tem o sorriso bonito,

apesar dos dentes cariados.

 

O melhor comediante de minha geração

morreu ontem em absoluta miséria:

o corpo ossudo, a dentadura triste

e o rosto num esgar de pânico e solidão

foram bem recebidos pela Morte,

que sorriu.

 




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21 de fevereiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia morte, tristeza

               
              
            
                

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