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16 de agosto de 2018

A última gargalhada

Os médicos pensam que aquilo começou quando ele sobreviveu milagrosamente ao terremoto de 2005. Todas as casas do quarteirão vieram abaixo, e só ele se salvou: estava sentado na privada de um banheiro químico, a algumas quadras de sua casa, lendo o jornal. Quando soube do ocorrido, teve um abalo neurológico que paralisou os músculos de seu rosto, trazendo como resultado um sorriso permanente, com picos de gargalhada. Recorreu a inúmeros tratamentos, mas nenhum deles produziu efeito. Ele ri o tempo todo, não importa a circunstância.

Para começar, já não pode mais assistir a funerais, porque os parentes o olham feio, pensando que goza com a cara do defunto. Tampouco pode comparecer a cerimônias de homenagem, porque sempre gargalha ao ouvir os discursos laudatórios.

No banco negam-lhe crédito, mesmo quando explica para o gerente suas dificuldades financeiras. Nos restaurantes não lhe dão atenção quando diz que trouxeram o prato errado; não raro come o que não pediu.

Sua sogra morreu e ele não pôde conter o riso quando ouviu o médico dar a notícia. Por causa disso, sua esposa pediu o divórcio, alegando que, com ele, já não conseguia discutir nada sério. A filha nunca perdoou a gargalhada que ele deu quando o noivo, solene, disse “sim” no altar.

Há muito os amigos deixaram de convidá-lo para assistir aos debates presidenciais pela televisão. Suas risadas são insuportáveis. Uma vez foi expulso do cinema, justo na cena em que o Titanic começava a afundar.

Quando morreu, seus parentes e amigos, por obrigação, levaram seu caixão ao cemitério. Muitos deles não puderam conter o riso quando, na última pá de cal lançada pelo coveiro, ouviram uma estrondosa e divertida gargalhada.

 




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16 de agosto de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos gargalhada, riso, sorriso

               
              
            
                

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