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17 de março de 2017

A última tertúlia

Eram lendárias as tertúlias mensais que aconteciam no Café Artístico, o ponto de encontro dos intelectuais da cidade de Santa Ermengarda. Eram reuniões brilhantes, de discussões acaloradas e apaixonadas, não raro violentas, que terminavam muitas vezes em bofetadas acompanhadas de promessas de vingança e morte. Os dois críticos literários mais influentes da cidade, Beócio e Tremício, que organizavam os encontros, dividiam admiradores e paixões. O povo estava polarizado: de um lado, os tremicianos, que jamais admitiam opiniões contrárias, de outro, os beocianos, que alardeavam que Beócio era o Deus da Literatura descido na Terra para nos abençoar e libertar. Até que, devido à virulência dos ataques, as reuniões foram proibidas no Café Artístico. Um último encontro foi marcado para encerrar a era das tertúlias em Santa Ermengarda.

Naquela noite de fevereiro o café estava abarrotado. Ninguém queria perder o derradeiro embate entre os críticos a respeito do livro de Francis Caduco, escritor emergente, que acirrou opiniões à direita e à esquerda. O calor era terrível e o público não viu outra saída a não ser beber, e beber muito! Nunca se bebeu tanto numa só noite em Santa Ermengarda, muito mais do que seria prudente. E a discussão começou, com o som do piano ao fundo dando o toque artístico ao encontro.

Beócio destacou as qualidades literárias do livro de Caduco, mas criticou ferozmente o uso despropositado de metáforas; Tremício, ao contrário, enalteceu o uso de tal recurso de linguagem, dizendo que se prestava a enfatizar, com elegância e apuro estético, a narração de fatos desagradáveis. Os aplausos se dividiam, ora para um, ora para outro, contribuindo para aquecer o duelo verborrágico no pequeno palco do café. No calor do embate retórico, alguém da plateia sacou um revólver e ameaçou disparar contra todos. Depois apareceram as navalhas, tesouras e adagas afiadas que, junto com os cacos das garrafas quebradas, transformou o público do Café Artístico num exército armado até os dentes. O chão do café rapidamente se converteu num mar de sangue, vísceras e algum resto de massa encefálica.

Depois da tragédia, o prefeito de Santa Ermengarda, beociano convicto — embora quisesse aparentar neutralidade —, decretou luto oficial de três dias em respeito às vítimas daquela noite. Com os dois grandes críticos literários mortos e enterrados, as tertúlias deixaram de existir definitivamente na cidade. É que em Santa Ermengarda, exceção feita a Beócio e Tremício, nunca ninguém tinha lido um livro sequer.

 




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17 de março de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos café, livro, tertúlia

               
              
            
                

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