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7 de agosto de 2015

A viagem das lágrimas

lágrimas2Observo-a. Minha companheira de viagem dorme, sentada na poltrona do ônibus, a poucos metros de mim. Não a conheço e, vez por outra, fixo os olhos em sua figura. Noto suas mãos cruzadas, a pele muito branca, o cabelo ruivo descendo em cascata sobre as costas. Penso escutar sua respiração regular,  de quem dorme profunda e suavemente, sem sobressaltos. É bonita a minha companheira de viagem. Nada parece perturbá-la: os solavancos do ônibus, a cidade que pulsa lá fora, as freadas bruscas no sinal vermelho. Não sei seu destino. Olho para fora e deixo passar a paisagem pelas minhas retinas: aí estão as ruas, as pessoas que andam apressadas, os ciclistas, os operários da construção civil. Ninguém se importa com a minha companheira de viagem, que dorme como se eles também não existissem. Será que ela sonha?

Tão calma como uma gota de orvalho pendendo do olho verde de uma folha, uma lágrima começa a descer pela bochecha de minha companheira de viagem. A gota transparente e salgada desliza com lentidão, busca os sulcos da pele naquele rosto branco e desaparece queixo abaixo. Logo aparece outra lágrima, idêntica à anterior, que percorre o mesmo caminho. Num gesto instintivo, tiro um lenço do bolso, levanto-me e, em pé ao lado dela, enxugo aquele rosto que, de repente, se converteu numa superfície úmida e brilhante. Ela não percebe. Continua inteira no sono – e no sonho também?

De que classe seriam aquelas lágrimas? De dor, tristeza, despedida, alegria, desilusão? Não saberei nunca. Elas continuam caindo, e meu lenço a secá-las.

Minha companheira de viagem aos poucos abre os olhos e olha para fora. Prepara-se para descer. Pede licença e toca a campainha. Salta quando o ônibus para. Eu ocupo seu lugar agora vazio e a observo pela janela. Vejo que caminha com passos decididos. Vira a esquina e a perco de vista.

O ônibus continua a viagem.

O assento que ela ocupava ainda não adquiriu a forma do meu corpo. Tem a do corpo dela.

A cidade continua pulsando lá fora.

Com o lenço na mão, durmo.

 




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