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8 de dezembro de 2015

A vida passa pelos pés

sapatosCompletei oito anos porque minha mãe quis assim. E foi com oito anos que entrei pela primeira vez no metrô. Senti muito frio, porque era julho e em julho a cidade é fria. Lá eu percebi que podia existir noite durante o dia e conheci a escuridão, que era da cor da minha pele e do meu espanto. Eu estava debaixo da terra, tatu, viajando de um lugar para outro sem saber direito onde estaria quando a viagem terminasse. Era um negrume só e, no meio dele, refletidos no vidro da janela do trem, eu e meus olhos negros.

Hoje não tenho mais oito, mas oito vezes oito e continuo sentindo frio no metrô, mesmo no mês de janeiro, quando a cidade não é fria. Minha mãe já não está e eu não olho mais o reflexo de minha pele negra no vidro da janela, igual à escuridão que ainda carrego nos poros. Também não detenho mais os olhos no espetáculo que costumava contemplar todos os dias: os bocejos, a capa dos livros, os jornais na página de esportes, os celulares, os fones de ouvido, os cadernos dos estudantes, os beijos de despedida, o ar de tédio, a expressão de cansaço. Hoje tudo isso me aborrece. Agora gosto de me sentar e apreciar os sapatos das pessoas. Viajo olhando pés. E sapatos. Tento adivinhar as histórias e o que dizem aquelas botas de couro marrom, os sapatos de salto, as sapatilhas coloridas, os chinelos, os sapatos negros dos executivos, as sandálias, os tênis.

É a primeira hora do dia, quando as pessoas saem de casa para o trabalho, e os sapatos deveriam estar limpos, mas não estão. Uns têm manchas, outros estão com o cadarço desamarrado, lambendo o chão. Uns estão com a sola bem gasta, outros pedem graxa. É pelos sapatos que reconheço enfermeiras, putas, varredores de rua, operários, lavadores de janela, bancários, vendedores ambulantes, faxineiras, desempregados, ladrões, advogados, agiotas. Eles não dão importância ao que calçam, é por isso que, àquela hora da manhã, os sapatos não estão limpos.

Sei tudo olhando os sapatos: onde moram, que música escutam, a marca da cerveja que bebem, os lugares a que gostam de ir depois do trabalho, que esporte praticam, o que fazem nos fins de semana, se têm marido ou esposa, se são generosos ou hostis, alegres ou cheios de melancolia. Há muita vida e muita história em torno desses sapatos. Eu não preciso olhar para cima, para os rostos: a mim me basta manter os olhos baixos para saber tudo. E então desço ainda mais meu olhar e o dirijo para os meus próprios pés: descalços, negros e cheios de calos e feridas e dores talhadas numa cidade que não para de se movimentar ao ritmo do século vinte e um.

Fecho os olhos por um instante e, na escuridão que se desenha, sei que todos aqueles que me brindam a vida em seus sapatos estão justamente tentando adivinhar a minha, olhando meus pés desnudos.

Que apreciem o espetáculo.

 




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8 de dezembro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos escuridão, pés, sapatos

              
            
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