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23 de abril de 2018

A visita

A Parca conferiu o endereço duas vezes e sossegou — não gostava de aterrorizar as pessoas erradas. Tirou os óculos e tocou a campainha. Carmencita, a adorável velhinha de cabelo azul, colar e brincos combinando, abriu a porta.

— Demorou! Pensei que tivesse desistido. Vamos entrando. Não repare na bagunça, os netos vieram ontem e a diarista só vem amanhã.

Carmencita arrasta os pés com artrose até a sala. Sete metros, dez minutos contados no relógio, uma eternidade, a Parca atrás. Aponta a poltrona:

— Sente aí. Preparei chá de hortelã.

A Parca bebe aos golinhos. Carmencita estende um prato de biscoitos.

— Comprei ontem. Estão fresquinhos. Vão muito bem com hortelã. De vez em quando a gente encontra produtos bons no supermercado. Coma, coma.

A Parca, gulosa, pega dois de uma vez. Mastiga com ruído, bebendo chá para engolir melhor. A velha segura a chaleira com as duas mãos, seu pulso já não tem mais força.

— Mais chá? Aproveite que ainda está quentinho.

Sem mais chá nem mais nada, — a Parca sacode da roupa as migalhas de biscoito e se levanta da poltrona. Vai na direção da porta e parece ter pressa. Sua cabeça raspada, de tom rosado, impressiona. Sua altura também, quase bate no teto e por pouco não quebra o lustre.

Carmencita enche a própria xícara. Devagar. Fala com voz firme, sem olhar para a outra:

— Informo que não pretendo ir sem lutar.

Já perto da porta, a Parca para e olha para a velha. Vê seu corpo diminuto, mimetizado e quase desaparecido na forração estampada e encardida do sofá. Não lhe pareceu perigosa, de jeito nenhum. Fez um gesto de enfado. Carmencita fingiu que não percebeu e apontou o prato de doces.

— Temos tempo. E depois, o que é o tempo? O tempo passa, você poderia dizer. Será que passa mesmo ou somos nós que passamos? Hein? Volte pra cá, sente aí e vamos conversar. Coma mais biscoito, tenho outro pacote lá na cozinha.

A Parca obedeceu. Carmencita falava como se estivesse sozinha:

— Também tem bolo de cenoura. E gelatina. E manjar de leite condensado. E canjica. E torta de morango. E suco de uva. Eu sei lutar, ouviu bem?

 




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23 de abril de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos chá, doces, Parca, visita

               
              
            
                

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