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14 de dezembro de 2015

Absurdo teatro

cachorroCada um numa ponta da mesa, o senhor Tibúrcio e a senhora Engrácia tomam o café da manhã sob o olhar atento do senhor Ulisses.

– Por obséquio, senhor Ulisses, pode dizer à excelentíssima senhora dona Engrácia que hoje à noite não estarei em casa para o jantar? –diz o senhor Tibúrcio, alto o suficiente para que dona Engrácia o ouça.

Ciente de seu papel nesse teatro absurdo, o senhor Ulisses vai até onde está dona Engrácia. Late duas vezes, com pequeno intervalo entre os dois sons. Ela responde sem olhar para ele, enquanto sorve seu café preto aos golinhos:

– Senhor Ulisses, por gentileza, diga ao senhor Tibúrcio que pouco se me dá o que ele faz ou deixa de fazer. E que ele pode ir lamber sabão.

O senhor Ulisses retorna ao senhor Tibúrcio e emite três ladridos rápidos, sem nenhum intervalo entre os três sons. O casal, em turnos, joga pedaços de pão para ele, que os apanha no ar e ganha sorrisos e aplausos, muito bem, que gracinha, senhor Ulisses!

Logo depois o senhor Tibúrcio pega a bengala e o chapéu e caminha resmungando até a porta da frente.

– Senhor Ulisses, diga à excelentíssima senhora dona Engrácia que ela está uma perfeita bruaca com aquele cabelo vermelho. Adeus.

O senhor Ulisses olha para a senhora Engrácia e a vê arrumando os cachos recém-pintados. Com ar aborrecido, ela limpa os lábios com o guardanapo de linho branco e pede que ele a acompanhe. Vão até o jardim da casa, para o passeio habitual das manhãs. Logo ela se cansa e senta-se num banco sob um frondoso abacateiro. Começa a falar tediosamente de sua vida desinteressante; o senhor Ulisses a ouve com tédio semelhante.

– Ai, senhor Ulisses, se o senhor soubesse como estou desgostosa com a costureira… E com a manicure… E com a pedicure… E com todo mundo! Eu pedi um tecido verde para o vestido da festa de amanhã, e todas elas disseram que verde não combina com a cor nova do meu cabelo. Que insolentes!

Um abacate cai e se esborracha com estrondo no chão. Nenhum dos dois dá importância. O senhor Ulisses boceja e estica o corpo no gramado. Finge que dorme (teatro).

Perto da meia-noite o senhor Tibúrcio está de volta. Bêbado, solta palavrões e tropeça nos móveis. O senhor Ulisses simula fazer festa quando o vê (teatro!), trôpego e falando com a língua enrolada. Segue-o até a biblioteca para o ritual de toda noite. O senhor Tibúrcio arria as calças e fica de quatro, à espera. O senhor Ulisses utiliza um taco de bilhar para penetrá-lo e ouve os gritos lascivos do velho, que termina dormindo no assoalho com o dedão da mão direita enfiado na boca.

Em seguida o senhor Ulisses olha para cima e sobe correndo a escada. A porta do quarto da senhora Engrácia está entreaberta e ele a ouve suspirar, impaciente. Ágil (teatro, teatro!), pula na cama e se enfia sob os lençóis. Sabe exatamente o que fazer e o faz depressa, pois está muito cansado. Serviço terminado, vai para a casinha dormir; sabe que amanhã haverá mais teatro para representar.

 




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