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10 de maio de 2019

Abusada

Ela quase nunca se lembrava do que não podia falar, daí aqueles silêncios, daí o baixar de olhos, daí o desviar de atenção, até que alguém mudava de assunto e a conversa continuava. Mas não se esquecia do cuidado especial que devia ter com a roupa que usaria no jantar: nada de decote ou manga curta. Que ninguém visse os sinais e cometesse a gafe de perguntar o que era aquilo, ela estava doente?, o que eram aquelas manchas roxas?, ela já tinha ido ao médico? Evite as perguntas, o marido dissera, ninguém precisa saber da nossa vida e o que acontece dentro de casa. Era a ordem que ele dava sempre que tinham que ir a um compromisso social.

Mas os olhos — ah, esses! — não dava para esconder. Por mais cuidado que ele tivesse em não atingir o rosto e cuidar de molestá-la com a mão pesada só do pescoço para baixo, aqueles olhos, de tristeza infinita, ela não teria como sacá-los do próprio rosto. Maquiagem não disfarça infelicidade ou medo.

Ouviu o marido, preocupado com a violência crescente e com a segurança de sua família, contar para os amigos que ontem tinha comprado uma arma.

 




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10 de maio de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos abusada, manchas roxas, olhos

               
              
            
                

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