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10 de novembro de 2017

Afeto para uso diário

O homem da cicatriz no rosto viu quando ela ia descalça pela estrada. Parou o carro e a pôs no banco de trás, encolhida feito um novelo. Ela tremia de frio, ele a cobriu com uma manta. Dirigiu o mais devagar que pôde, não a perturbasse nenhum solavanco. Não disseram palavra. Em casa, deu-lhe banho quente, segurando-a pela nuca, como a um cadáver. Observou que ela tinha novas tatuagens, gostou de algumas, não de todas. Preparou-lhe um mingau suave, para não machucar seu estômago, sabe-se lá desde quando não comia. Meteu-a na cama em silêncio, cuidando para não tirá-la do torpor em que estava imersa. Foi até o jardim e queimou as roupas que ela vestia. Eram roupas de homem. Enormes, como as dele.

Pela manhã, o homem da cicatriz no rosto acordou no sofá já sabendo que ela tinha ido embora, certamente vestindo roupas dele. Também sabia que, no espelho do banheiro, escrito com batom vermelho na caligrafia ainda infantil, encontraria o pedido para que não voltasse a ajudá-la: Por favor, não me ajude mais. A mesma súplica que, horas atrás, o homem da cicatriz no rosto tinha sussurrado no ouvido dela antes de se deitar no sofá e mergulhar no sono mais profundo de toda a sua vida.

Nem ela nem o homem da cicatriz no rosto saberiam prever o próximo encontro.

 




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10 de novembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos afeto, ajuda, cicatriz, homem

               
              
            
                

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