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20 de abril de 2016

Agora não é hora

homem sozinhoAgora não é hora, e peço que não me perguntem quando e como aconteceu. Se fazia frio ou calor, se a lua estava cheia girando no céu ou, ao contrário, se havia nuvens se juntando para a conspiração da chuva, se a cidade estava tranquila ou era o formigueiro habitual de cotovelos se chocando, se os pássaros gloriosos de Harold e Maude singravam a amplidão ou se havia quietude no firmamento, se os carros tiravam faíscas do chão ou se o asfalto dormia seu silêncio: não me perguntem nada, nem queiram saber de nada.

Perguntem-me, isso sim, se me lembro de sua blusa florida aberta até a altura dos seios, de sua saia rodada que terminava perigosamente na altura dos joelhos, de seus sapatos pretos que faziam círculos na terra sob o banco em que estávamos sentados sob aquele céu, naquele parque, naquele dia. Não tenham receio de querer saber se ainda me recordo de seu pescoço descoberto, com a cascata de cabelos cuidadosamente depositada sobre um dos ombros, deixando o outro exposto para a contemplação e o desejo. Sim, disso tudo eu me lembro.

Minhas retinas também não esquecem suas mãos, sempre nervosas, seus olhos, inquietos todo o tempo, e seus lábios, de onde saíram as palavras que me mataram por dentro. Perguntem-me sem medo se ainda sinto o contato de seus dedos no meu rosto, nas minhas pernas, no meu cabelo, mas não queiram saber se havia pessoas ao redor ou se algum cachorro latiu naqueles momentos intermináveis de agonia. Disso eu não sei.

Perguntem-me pelo rosto dela, ainda que não saiba defini-lo nem descrevê-lo, mesmo que ele esteja gravado em minha memória. Mas não me perguntem pelas lágrimas que brotaram daqueles olhos, por aquela forma de chorar que me cortou o coração, que era a forma líquida, junto com a concretude das palavras, de me matar. Nem falarei de como ela enxugou o rosto com o dorso das mãos, de como se soltou de meus braços, de como se levantou e caminhou pelo parque, se distanciando de mim, perdendo-se entre as pessoas, sumindo na cidade para entrar definitivamente nos meus sonhos: ela, convertida em sombra; eu, em nada.

Eu sou esse nada sentado sozinho nesse banco, nesse parque, sob esse céu que ainda não decidiu se despeja a chuva ou se mantém lá no alto a lua cheia girando sem sentido, sem razão, sem porquê. Mas não me perguntem nada, agora não é hora.

 




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