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22 de março de 2019

Ai, Tarantino!

Uma vez escrevi um conto com exatas cem palavras. Foi um feito e tanto. As pessoas o leram com entusiasmo e o recomendaram a seus amigos e aos amigos dos amigos. Fiquei famoso e me converti em celebridade. Fui convidado para entrevistas e programas de auditório — todos queriam saber como pude produzir um texto tão enxuto, tão conciso e, ao mesmo tempo, tão abrangente e universal. Publicaram resenhas sobre meu conto, sempre mais extensas que ele próprio. Fui traduzido para vários idiomas. Os críticos literários se derramaram em elogios nos jornais e revistas do país inteiro e até do exterior. Um produtor norte-americano me telefonou, disse que estava interessado em adaptar minha história para o cinema e que iria convidar Tarantino para dirigir e Leonardo DiCaprio para interpretar… Tarantino! Leonardo DiCaprio! Será que eu estava sonhando? Que eu aguardasse, pois o Tarantino em pessoa iria me ligar para falar sobre o roteiro que ele estava criando com base na minha história. Eu mal podia acreditar. Foi então que alguém — uma impertinente, inoportuna e completamente inconveniente pessoa — descobriu que eu tinha escrito porque no lugar do mais adequado por que. Isso caiu como um balde de gelo na fervura da minha alegria. Não era mais um conto de exatas cem palavras… Estava sobrando uma! Mas o texto era tão perfeito! Como fazer para que voltasse a ter a centena exata de termos? Depois de muito pensar, resolvi eliminar um artigo da narrativa, mas já não era mais a mesma coisa. O encanto de todos com meu conto de exatas cem palavras tinha virado fumaça. Hoje os críticos me ignoram, ninguém mais me chama para entrevistas e estou até agora esperando o telefonema do Tarantino. Por que, maldito seja!

 




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