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9 de fevereiro de 2021

Ainda não

Primeiro ele as olha e, depois de se certificar de que são suas, ele as beija. Bem que seu médico avisou que um dia ele não as reconheceria. Por isso repete o ritual a cada manhã: olha as próprias mãos e as beija. Verifica cada mancha, cada veia, cada sulco. Estão todas ali, as marcas das suas mãos, sinais de uma vida inteira. Em breve ele deixará de perceber que sempre estiveram aí, na extremidade dos braços, e não as reconhecerá como suas. Se puder, fará tudo para retardar ao máximo a chegada desse momento. Agora, mais animado por saber que a lucidez por enquanto não o abandonara, olha-se nos olhos na frente do espelho e sussurra: “Por favor, não se esqueça de mim ainda.”

 




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