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18 de julho de 2015

Alea jacta est #2

recadoDia desses tinha recado na secretária eletrônica: “Mami, aqui é a Flávia. Não posso ir jantar, estou com cólica. Pode ser amanhã? Me ligue avisando. Vou ficar em casa a tarde toda. Beijo.”

Até prova em contrário, eu não sou a mami da Flávia, e estou triste porque a pobre senhora ficou sem jantar. Eu também fiquei, incapaz de fritar um ovo depois de ouvir esse recado. Existem coisas – como as vozes anônimas, gravadas numa secretária eletrônica – que têm poder de estragar o dia de qualquer mortal, e contra isso não há remédio. Dormi com fome.

Dia seguinte, outro recado: “Jaime, o fato é que o tumor do Luís é maligno. Como se fosse pouco, a caçula quebrou o braço e a Clarice está sem empregada. Não dissemos nada para o velho, você sabe, com a saúde frágil dele é capaz de ter um infarto. De bom mesmo só que o Julinho passou no vestibular. Ligo mais tarde.”

Por partes: eu não me chamo Jaime, não conheço Luís ou Clarice e não dou a mínima para o vestibular do Julinho, mas essa sucessão de desgraças alheias me arruinou a noite. Quando uma pessoa leva dois dias seguidos ouvindo notícias sobre acontecimentos que nada têm a ver com a sua vida, a fita do gravador passa a ser vista como um repositório onde bilhões de micro-organismos se reproduzem, com o objetivo único de prejudicar a saúde emocional dessa pessoa. No caso, eu. Por via das dúvidas, passei álcool na fita, quem sabe assim, desinfectada, ela pare de registrar desgraça após desgraça. Tive esperança.

Esperança que não valeu de nada. Quando voltei do trabalho hoje, novo recado: “Geraldo, essa foi a última vez que você furou comigo, seu filho duma égua insensível. Hoje mesmo vou me suicidar, e a culpa vai ser toda sua.” Respiro fundo. Eu não sou o Geraldo. Repito baixinho: eu não sou o Geraldo! Passei dois dias procurando nos jornais alguma notícia sobre um suicídio, mas não achei nada. E o recado não me saiu da cabeça por semanas. Quem pode viver assim, com a culpa de um suicídio nas costas?

Preciso me defender das desgraças alheias. Disco ao acaso vários números até chegar num com secretária eletrônica. Deixo a seguinte mensagem: “Desculpe o incômodo, dona Regina, mas a senhora pode voltar correndo pra casa agora mesmo? O Júnior caiu da escada e fez um rombo na cabeça e o Alfredinho engoliu o braço do Homem-Aranha e não consegue respirar. Eu não posso sair de casa porque não tenho com quem deixar o bebê. Ah, e o carro explodiu na garagem”. Desligo e solto o ar devagarinho. Foi um bom desabafo. Estou decidido a aumentar o tom das desgraças se essa guerra de recados se prolongar. Quem avisa não é traidor.

 




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