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18 de julho de 2015

Alea jacta est

gerente

Sentado atrás da mesa como se num bunker, o gerente do banco pigarreou uma, duas vezes. Pediu desculpas e seguiu explicando ao jovem casal as condições do empréstimo. Enquanto detalhava o valor das prestações, calou-se por um momento, como se lhe faltasse o ar. Cobriu a boca com uma das mãos e tossiu com força. Sorriu sem graça e pediu desculpas de novo. Bebeu um gole d’água e prosseguiu, “o contrato esclarece que…” A tosse persistente o obrigou a interromper mais uma vez o palavreado. Mais água, mais tosse, as frases morriam na metade. O casal, embora aflito, permanecia atento aos pormenores da transação. Justo quando ia falar sobre os juros do empréstimo, o gerente ficou com o rosto vermelho e levou a mão ao peito. Os olhos esbugalhados, a boca aberta buscando o ar que não vinha, tentou com desespero desatar o nó da gravata. Com um grito lancinante tombou a cabeça sobre a mesa. Um médico chamado às pressas, depois de examiná-lo, confirmou a morte por asfixia e extraiu da garganta do gerente uma taxa de juros de dois dígitos, várias cláusulas que penalizavam os inadimplentes e um punhado de letras miudinhas, daquelas que mal se enxergam.

* “A sorte está lançada”, em latim

 




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