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6 de dezembro de 2016

Amor e vômito

sarjeta

Vomitei na saia florida dela. Ganhei uma sonora bofetada, com a mão aberta e dedos que quase deslocaram meu maxilar, acompanhada de porco bêbado, maldita seja eu, quem mandou me envolver com esses olhos verdes? O taxista nos expulsou do carro, vão empestear o carro da puta que os pariu, desgraçados!, e engatou a primeira para sair dali, mas ela fez cara de choro e apontou o jardim da saia, que tinha orquídeas e cravos e rosas misturadas com pedaços de estrogonofe, pudim de leite condensado e uma gosma avermelhada que parecia o vinho tinto que tomei no jantar. Com dó, o motorista aceitou levá-la até onde ela morava. O cheiro de comida regurgitada dava nojo, mas só em casa ela poderia jogar a saia na máquina de lavar. Ou no lixo, lugar mais apropriado, livrando-se assim do meu vômito e das lembranças que ele trazia.

Eu fiquei sentado na sarjeta, ruminando os acontecimentos da noite, me sentindo uma alga asquerosa que alguém desgrudou da própria pele e descartou. Traguei a saliva azeda e não chorei — não naquele momento —, não lamentei, não me amaldiçoei nem uivei para o céu implorando consolo. Já fiz isso por muitas mulheres durante esses intermináveis anos de amores desatinados. Foda-se!, sussurrei, limpando a camisa e a gravata, convencido de que o vinho era mil vezes melhor que qualquer uma delas, que todas elas. Levantei-me com esforço e fui, cambaleando, na direção da lua e gritei Foda-se! antes de — agora sim — começar a chorar como uma criança que de repente perdeu a mãe.

 




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6 de dezembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos amor, flores, jardim, vômito

               
              
            
                

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