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15 de março de 2016

Amor insuportável

máscarasAs roupas tiradas com sofreguidão, entre os beijos intermináveis, ficaram jogadas no chão daquele quarto de hotel. Meteram-se na cama com a urgência dos condenados à morte, usando apenas a máscara de sedução com a qual tudo havia começado, poucas horas antes, no bar onde tinham se visto. Entre carícias brutas e a pressa daqueles instantes iniciais, perceberam que tirar a roupa não era suficiente: os dois precisavam de mais que apenas a nudez. Ela usou as unhas afiadas, ele, a força dos braços. Assim, com o desejo irrefreável e animalesco guiando os movimentos de ambos, foram pouco a pouco arrancando-se os nacos de carne, músculos e nervos e espalhando-os pelo quarto, enquanto gemiam, e gritavam, e se lambiam, e babavam, e a saliva de um cobria o que restava do corpo do outro. Paredes, móveis, chão, cortinas, tudo estava impregnado dos pedaços e do cheiro de seu amor alucinado. Não demorou para que chegassem ao clímax, completamente saciados, desfeitos, desfigurados. Dilacerados.

Dois dias depois os homens da polícia entraram no quarto à força, depois de baterem por horas na porta, sem resposta. O quadro que viram ultrapassava qualquer entendimento ou explicação. Os pedaços de carne espalhados por todo canto compunham um cenário de horror jamais testemunhado por olhos humanos. Tudo começou a ficar mais claro quando os policiais encontraram sobre a cama as máscaras que os dois usavam no começo de tudo. As duas bocas sorriam, satisfeitas.

Os policiais encerraram a investigação e escreveram no relatório final: Duplo homicídio consentido. Motivo: amor insuportável.

 




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15 de março de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos amor, homicídio, insuportável

              
            
  1. Mario, a cada conto, seu talento, mais e mais, transborda. A “urgência” com a qual você escreve o primeiro parágrafo, reflete a urgência do amor desmedido, e insuportável, praticado pelos protagonistas.
    Parabéns

    • Grande Silvio, muito obrigado pelo comentário. Eu tive mesmo essa intenção, de escrever um primeiro parágrafo quase sem fôlego. Vc é talentoso também por perceber isso. Grande abraço.

  2. Há apenas duas expressões que eu posso utilizar para expressar minha impressão sobre esse conto… a primeira é “UAU”! E, com certeza, “OBRIGADO”!

    • Rafael, muito obrigado. Também gosto do resultado que obti com esse texto. Seus comentários são sempre bem-vindos. Sou muito grato a vc. Abraço.

  3.     
                        
              
            
                

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