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24 de outubro de 2016

Amor perigoso

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Os dois sabiam — ela mais que ele — que era um amor perigoso e que a qualquer momento a fatalidade aconteceria. Uma tragédia anunciada, comentavam os outros. Não era por acaso que ela tinha esse pescoço tão longo e tentador de cisne, e ele, essas mãos de estrangulador, grandes, peludas e fortes. O destino, de maneira geral, age sozinho e dispensa acessórios, mas, no caso deles, a anatomia foi providencial. Quando o inevitável estava para acontecer, e ela sentiu que lhe faltava ar pela pressão das mãos dele em sua garganta, abriu a boca o mais que pôde e de lá surgiu uma língua de serpente, sem tamanho que se pudesse medir, ziguezagueando até atingir o rosto dele, que ficou de imediato submerso numa chuva morna de saliva. E assim, com essa língua descomunal, ela começou a lambê-lo, tanto, e muito, e com tal intensidade, que não foi possível precisar quanto, e dele não restou centímetro que não tivesse sido lambido e chupado, em ritmo de terna ferocidade e açucarada loucura, pelo músculo poroso e úmido e elástico que vinha das profundezas daquela boca.

Ela mesma me confessou que, desde aquela vez, a sombra de uma tragédia anunciada fora afastada para sempre. Agora trotam e saltam com liberdade pelos vales e planícies dos lençóis. Disse também que o que ocorreu não tinha nada de fantástico, foi apenas uma das tantas maneiras que o amor encontrou para enganar a morte e esta, por respeito aos jogos da paixão, se deixou enganar.

Eu acredito nela. E morro de inveja dele.

 




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