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12 de março de 2016

Amorosa

bibiana2A cada noite o mesmo ritual. Com delicadeza e resignação, Bibiana recolhe os pedaços e os coloca sobre a mesa da cozinha. Pega sua caixa de costura e escolhe com cuidado o fio que utilizará para unir as partes desconjuntadas. Sempre uma cor diferente, porque os dias nunca são iguais, tampouco as dores são as mesmas. A agulha, procura a mais fina, aquela que torna os furos quase imperceptíveis e deixa o cosimento quase invisível a olho nu. Usa um dedal prateado, não picasse a ponta dos dedos e perdesse sangue desnecessariamente. É um costume, e Bibiana está prenhe de costumes. Já se habituou a isso. Suspira e começa o trabalho, vai alta a lua no céu e ilumina a costureira em seu mister solitário encostada à janela.

Amorosa e paciente, Bibiana fura e passa a linha de um ventrículo ao outro. Sua tarefa fala por si, é fruto de mãos hábeis. Trabalho pronto, Bibiana esfrega os olhos e se prepara para dormir. Pede aos céus por uma mansa noite de sono.

Pela manhã, Bibiana olha e acaricia o produto de seu trabalho noturno. Certifica-se de que ele ainda bate e o coloca com cuidado no lugar original. Sai de casa para enfrentar o dia, sem nunca, nunca, nunca perder a esperança de regressar com ele inteiro e intacto dentro do peito.

 




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    • Abel, obrigado pela visita ao blog e por comentário tão generoso. Se estiver em SP no dia 17, vá ao lançamento de meu livro. Você me dará enorme prazer. Grande abraço.

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