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24 de janeiro de 2017

Anatomia do depois

Com a respiração voltando ao normal, o homem olha em volta. Entra no banheiro e lava as mãos. O sabonete tem cheiro de sândalo. Quando fecha a torneira, ele percebe que a água segue pingando. Pensa que amanhã tem que chamar o encanador. Seca as mãos e pendura a toalha no lado esquerdo do suporte: o direito é o de sua mulher. Fecha a porta do banheiro para não ouvir o gotejar da torneira, isso o deixa nervoso.

De volta ao quarto, procura uma camisa limpa e a veste: aquela de punho e colarinho com cor diferente do resto. Sabe que ela lhe cai bem e sente-se elegante. Quer estar elegante hoje. Na sala, olha de novo em volta. O papel de parede mostra cenas campestres em tons pastel. Pastores, pastoras, cabras, árvores. Foi sua mulher quem escolheu. Ao chegar ao batente da porta da cozinha, o papel teve que ser cortado, por isso há pastores sozinhos, sem suas companheiras pastoras e sem suas cabras. Ele não gosta desse papel de parede, mas nunca reclamou.

Vai até o escritório e para diante da mesa de trabalho. Cada uma das gavetas desse móvel tão grande e tão velho é um universo, e no universo cabem coisas, guardam-se coisas. Numa dessas gavetas as lâminas da tesoura repousam quietas. Acaricia a lombada de alguns livros. Um besouro pequeno, que estava por ali, cai de costas na beira da estante e fica batendo as patinhas com desespero, tentando se virar. Ele vira o inseto com a ponta de um lápis e o observa andar em busca de um canto escuro onde se esconder.

São cinco horas da tarde, ele consulta o relógio de pulso, comprado na última viagem a Nova York. Vai a passos lentos até o hall de entrada da casa. As cortinas são vermelhas. Com a luz do sol por detrás, o tecido de que são feitas lhes dá uma aparência rosada, de interior de fruta madura. Estava para abrir a porta de saída quando volta a cabeça para a sala e olha as duas poltronas colocadas uma de frente para a outra. Pareciam estar discutindo, ainda! Sai e bate a porta.

Desce pelas escadas. Conta dezoito degraus, não eram dezessete? Pensa em voltar para contar de novo mas desiste, isso não tem importância. Nada mais tem importância. Atravessa a rua e caminha pela calçada. Antes de se dirigir à delegacia, levanta a cabeça e olha para a janela de seu dormitório. Lá dentro tinha deixado sua mulher com uma faca enfiada no coração.

 




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