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27 de julho de 2016

Andarilho

andarilhoPor onde ia, arrastava um enorme saco de lixo. Vinha de nenhum lugar e a nenhuma parte ia. Perambulava, vencendo ruas, avenidas, praças e parques, uma cidade inteira. Todos o olhavam com desconfiança, nunca diretamente, mas de soslaio, que é pra não dar chance de aproximação. Ele nunca percebeu essas miradas oblíquas, preocupado apenas em olhar para o chão. Seus passos, como os braços e as pernas, tinham um só propósito: avançar, avançar, puxando com determinação aquele grande saco de lixo com tudo o que havia dentro dele.

Um dia, não se sabe exatamente quando, ele deixou de caminhar pela cidade. Não foi mais visto e, pouco tempo depois, ninguém se lembrava dele. Desde essa ocasião, como se precisassem substituir um velho hábito, todos passaram a olhar para mim, que ando por aí arrastando a duras penas uma existência sem qualquer cor ou expressão. Sei que me olham de esguelha, mas eu não me importo. Fixo meu olhar no chão e avanço, avanço, embora não tenha pra onde ir e nada de novo pra dizer, pra fazer, pra sentir, pra escrever.

 




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