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7 de maio de 2019

André e o coração de espuma

A máquina de café mostrou que ainda estava viva e soltou um rugido por todo o bar. Os clientes não sabiam que dentro dela um dragão quase verdadeiro aquecia as bebidas com sua língua de fogo e fazia o cafezinho de lá ganhar fama. Era o melhor da cidade, diziam. Só André conhecia esse segredo, assim como só ele sabia que os elfos se encarregavam de manter as xícaras limpas. E elas brilhavam, como ele comprovou várias vezes. A bruxa saiu da cozinha pra dar bronca em André por ele ter derramado leite no balcão, mas desistiu e disse que estava mortinha por um cigarro. André lembrou que era proibido fumar dentro do bar, então ela soltou fogo pelas ventas e foi para a calçada. Na porta, cruzou com a garota de cachecol listrado que acabava de entrar. Vinha tomar café, como de costume, e André parou o que estava fazendo só para vê-la andar desde a entrada até o balcão. É assim que uma princesa caminha, pensou.

Hoje era o dia, tudo conspirava a favor: poucos clientes no bar, a bruxa na rua fumando, o dragão e os elfos descansando. E a garota do cachecol listrado bem ali, na frente dele. André fez um carinho entre os olhos do dragão e lhe pediu que preparasse o melhor cappuccino do dia. Colocou a bebida no balcão com todo o cuidado, diante da garota. Ela viu o coração desenhado na espuma e sorriu, sem levantar os olhos da xícara. O dragão caprichou mesmo, pensou André. Agora só faltava ela jogar o saquinho de açúcar mágico e mexer com a colherzinha de prata, desmanchando o coração no meio do café. Foi o que a garota fez. Ela bebeu um golinho. O coração de espuma branca voltou a se formar na superfície da xícara. A garota sorriu de novo e levantou os olhos. Os dela encontraram os de André, que estava ali, um sorriso só, à espera de que o encantamento se cumprisse: um café, um olhar, um beijo.

 




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