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4 de julho de 2019

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

O sanfoneiro tocava seu instrumento lamentoso no vagão quase vazio do metrô. Os braços tinham só pele e osso, os olhos, puro veludo marrom, da cor de sua sanfona. Entre um acorde e outro dizia Pojutório. Só mais tarde entendi que ele perguntava Pode dar um ajutório? Uma freada violenta do trem o jogou para um assento vazio, ao lado de onde eu estava. Vestia uma camiseta puída que tinha nas costas os versos de uma canção do Belchior, “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. Desceu na estação seguinte e desmaiou na plataforma. Seu corpo magro amassou a sanfona contra o chão e um Dó maior comprido e triste se ouviu até que soou a campainha de fechamento da porta e o trem seguiu viagem.

 




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4 de julho de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos ajutório, Dó maior, sanfona, sanfoneiro

               
              
            
                

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