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7 de abril de 2018

Antes de cair o pano

O grito deixou Joana paralisada. Estava na cozinha e aquela que gritou, no quarto. Não era a primeira vez. Tudo começou havia menos de dois anos. Os primeiros cabelos brancos e as primeiras rugas — pequenas ruas, ruelas de mão única que lhe marcavam o rosto, dando passagem para as lágrimas, o suor, a remela. Isso a tinha transtornado e então gritou. O que terá sido agora?

Hoje gritou por gritar e atirou na parede o prato cheio de comida, não sem antes emporcalhar a própria roupa. Motivo não tinha. Joana apareceu na soleira, o coração batendo na garganta, nos ouvidos. Olha-a e morde o lábio. Ela está de cabeça baixa, talvez envergonhada, talvez fingindo, talvez as duas coisas.

Joana escolhe não fazer julgamento, e tem que se esforçar para isso. Gostaria de estar em outro lugar, quem sabe meter-se debaixo do chuveiro e chorar por três horas seguidas. Olha o relógio: sete e trinta. É a hora da parte mais difícil do dia: ajudá-la a se levantar da cadeira e deitá-la na cama. Ela levanta a mão, gesto decidido: uma bofetada no rosto de quem depende para tudo. Joana crava os olhos nos dela e ela recua.

Nos minutos seguintes o silêncio toma conta do quarto e ela respira com mansidão, inerte na cama. “Falta pouco”, pensa Joana. Às oito em ponto, como saindo de uma profunda escuridão, traz o comprimido para dormir, antevendo o trabalho que terá para fazê-la engolir sem levar uma cusparada no rosto. Coloca nas mãos enrugadas o trapinho costumeiro, aquele com um nó em cada ponta. Baixa a persiana e a olha com piedade. Ela devolve um olhar envergonhado. Joana acomoda os travesseiros, arruma as cobertas, aproxima o trapinho do rosto murcho e enfia a chupeta em sua boca. Despede-se dela com um beijo na testa. Não diz nada, apaga a luz e sai. Há tempos tenta falar “durma bem, mãe”, mas não consegue. Hoje nem tentou, cansada demais, triste além da conta. Talvez amanhã ou numa noite dessas, antes de cair o pano.

 




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7 de abril de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos cair o pano, gritos, mãe

              
            
  1. Mário

    É bem isso, as vezes cansa, mas nao sei aonde nem como, parece que com o raiar de um novo dia tudo ja fosse passado, se revigora e se comeca tudo de novo
    Maravilhoso

  2.     
                        
              
            
                

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