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7 de agosto de 2019

Apaixonado

Aquela manhã despertei abraçado ao cadáver da mulher com quem tinha passado a noite. Não era meu primeiro crime, mas sim a primeira vez que dormia com um defunto. Ontem à noite, no bar quase vazio, tinha sido fácil. Eu bebia um copo de vinho, ela fuçava no celular. Não tínhamos nada a perder ou a ganhar, nem eu, nem ela: cheguei junto, ela resistiu; insisti, ela cedeu.

Vários copos compartilhados depois, alguma droga excitante, uma negociação apressada e estávamos os dois nus na cama do hotel, os sentidos sem nada que os freasse. Ela revirava os olhos, puxava os lençóis, trincava os dentes; eu olhava para seu rosto enquanto acelerava meus movimentos e a respiração e escutava a gritaria que vinha do mais dentro dela, apesar do silêncio de seus lábios. Minutos depois, exausto, a madrugada pregada nas paredes do quarto, enterrei a faca em seu pescoço indefeso e branco. A cabeça tombou, mole, os cabelos caíram por cima do rosto. Abri a janela e abocanhei uma grande porção de ar, a garganta aberta.

Voltei para a cama. O sangue que escorria juntou meu corpo ao dela, peito com peito, bochecha com bochecha. Quando tentei me apartar, alguma coisa da minha pele e da minha barba ficou grudada em seu rosto, como uma tatuagem. Isso me enterneceu. Sorri, quase um bobo. Liguei para a portaria e avisei que só iria embora depois do meio-dia. Tornei a grudar meu corpo manchado de sangue ao corpo de onde saía o sangue. Será que me apaixonei?

 




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7 de agosto de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos apaixonado, cadáver, hotel, sangue

              
            
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