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2 de julho de 2018

Aquele olho

A etapa seguinte do Caminho terminava atravessando a Ponte dos Martírios. Foi ali que perdi o rumo, perdi a mim mesmo. Olhei em volta: nenhum ponto conhecido, nenhuma direção confiável. Um andarilho perdido, por onde seguir? Andarilhos, cuja profissão é andar, só andar, ainda assim precisam de rumo, meta a atingir. Eu tinha perdido a minha. A placa com o desenho esmaecido de uma flecha me levou a um lugar equivocado e acabou com a pouca força que me restava. Cheguei a um casarão abandonado quando a noite completava sua descida. O mato estava grande e não havia vidros nas janelas. Por educação, bati na porta antes de entrar sem licença, não me tachassem de invasor de propriedades alheias. Não pensei em perigo nem em risco de vida nem em nada, só que tinha que me abrigar antes de seguir andando, que diferença faz uma ferida a mais para um leproso?, e sorri por dentro.

A velha, baixinha e esquálida, apareceu na soleira e me olhou. Os cabelos ralos e brancos prendidos num coque no alto da cabeça lhe davam um ar infantil. Ia perguntar onde estava, que lugar era aquele e por onde seguir para alcançar novamente o Caminho, mas não tive tempo. Ela agarrou a manga do meu casaco e me puxou para dentro. Bateu a porta atrás de mim e o breu se fez. Catorze bocas famintas gemeram baixinho. Vinte e sete olhos me olharam desde a escuridão. O que mais me aterrorizou foi o olho do caolho.

 




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