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9 de novembro de 2020

Aranha

Há uma aranha na minha cozinha.

Vive num canto, quieta,

sem tecer, sem caçar,

sem procriar,

sozinha.

Sei que de alguma maneira se alimenta,

porque está gorda, seu pelo negro brilha,

as oito pernas estão bem estacadas no chão.

Imóvel aranha.

Espreitadora aranha.

 

Vejo-a todos os dias,

a sombra assustadora projetada no azulejo,

asco e calafrio em minha nuca,

o bote, quando virá?

 

Às vezes penso que está morta,

majestosa na sua imobilidade.

Percebo que não:

ela mente, dissimula, disfarça, negaceia.

Mesmo quieta, amedronta.

 

Prepara algo para algum dia,

planeja algo para algum dia,

contra mim.

Eu sei.

 




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