Close

7 de dezembro de 2016

A arte de negar

— Como é o seu nome?

— Joaquim da Silva.

— Quem são seus pais?

— Pedro e Joana da Silva.

— Onde você nasceu?

— Em São Paulo.

— Qual sua idade?

— Trinta e sete anos.

— Estado civil?

— Solteiro.

— Profissão?

— Pedreiro.

— Sabe que o acusam de molestar a filha de cinco anos de seu patrão?

— Sim, eu sei.

— Tem algo a declarar sobre isso?

— Que sou inocente.

O juiz olha para o acusado e diz pausadamente:

— Você não se chama Joaquim da Silva. Você não tem pais que se chamem Pedro e Joana da Silva. Você não nasceu em São Paulo. Você não tem trinta e sete anos. Você não é solteiro. Você não é pedreiro. Você não molestou a filha de cinco anos de seu patrão. Você não é inocente.

— E então, o que eu sou?, pergunta o acusado, sem entender.

Sem tirar os olhos de cima dele, o juiz responde, também pausadamente:

— Um homem que acredita se chamar Joaquim da Silva. Que acredita que tem pais que se chamam Pedro e Joana da Silva, que acredita que nasceu em São Paulo, que acredita que tem trinta e sete anos, que acredita que é solteiro, que acredita que é pedreiro, que acredita que molestou a filha de cinco anos do patrão, que acredita que é inocente.

— Mas eu fui acusado, objeta o pedreiro. Até que não se prove que sou inocente, corro o risco de ser condenado e preso. Posso até morrer na prisão.

— Isso não tem a menor importância, responde o juiz, com sua fala pausada. Não é essa acusação tão inexistente quanto as suas respostas ao interrogatório? Quanto o próprio interrogatório?

 — E qual é a minha sentença?

 — Quando ela for dada, terá acabado para você a última oportunidade de compreender o que de fato aconteceu, a voz do juiz, ainda pausada, parecia saída de um megafone.

— Então estou condenado à prisão? Vou morrer na cadeia?, geme o pedreiro. Eu juro que sou inocente.

— Não, você acaba de ser absolvido. Mas eu vejo com infinito terror e consternação que você se chame Joaquim da Silva, que seus pais sejam Pedro e Joana da Silva, que tenha nascido em São Paulo, que tenha trinta e sete anos, que seja solteiro, que seja pedreiro, que seja acusado de ter molestado a filha de cinco anos do patrão, que seja inocente e que tenha sido absolvido. Com terror e consternação ainda maiores eu vejo que você está irremediavelmente perdido. Se você crê, peça ajuda a você-sabe-quem.

O juiz bate o martelo.

 




Tags:, ,

7 de dezembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos acusado, interrogatório, juiz

               
              
            
                

Deixe um comentário