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30 de junho de 2016

A arte de emergir do fundo do poço

poçoCair num poço é bastante simples: basta caminhar até a borda e não deter os pés quando lá chegar; o buraco negro o sugará para dentro dele e está feito. Ou pode-se saltar para o vazio, o que dá rigorosamente no mesmo.

Mais difícil, entretanto, é sair dele. Deixar para trás aquele oco sem fim, úmido e pegajoso, e aos poucos voltar à superfície e à luz; isso é muito complexo e raras sãos as pessoas que obtêm algum sucesso nessa empreitada. O fundo do poço é um ímã poderoso que puxa, atrai, retém, apriosiona. Mesmo quando alguém tenta tirá-lo de lá, essa não é uma tarefa de fácil execução. As ideias para isso e as tentativas de pô-las em prática são inúmeras: por exemplo, alguém pode jogar uma corda lá no meio da escuridão, gritar para que você se amarre nela pela cintura e, desde a borda, fazer um esforço descomunal para içá-lo desde a profundeza. É difícil, posso assegurar.

Há também aqueles incorrigíveis solidários. Para esses, não basta vê-lo lá no centro do buraco negro e lamentar a sua sorte, eles querem estar perto de você, dar-lhe um tapinha nas costas e sussurrar “estamos juntos nessa”, e para isso saltam sem pensar no vazio, não importando o que (não) vão encontrar quando chegarem ao fundo. Agora são dois no limbo, a meio caminho entre a claridade sobre a cabeça e a mais completa escuridão sob os pés. É uma situação aflitiva e constrangedora, pra dizer o mínimo.

Outros, mais práticos e com o instinto de autopreservação mais aguçado, ficarão em segurança na borda olhando para baixo e gritando instruções: “Apoie os pés nas pedras das paredes e venha subindo”; “Use os dedos e as unhas pra abrir buracos nas laterais, assim você faz alavancas e ganha impulso”; “Isso, querido, primeiro um pé, depois o outro, primeiro uma mão, depois a outra” etc. Essa gente que não sabe o que é estar no fundo do poço!

O que eu mais gosto de fazer, por uma mera questão de temperamento, é reunir forças e voltar à luz quando não há ninguém olhando, quando não há viv’alma esperando ou pressentindo que uma pessoa possa surgir de repente da escuridão. Esse é o melhor momento. Prefiro que seja à noite, porque, de manhã, como em todas as manhãs, sempre haverá alguém olhando para baixo para ver se eu continuo lá no fundo do poço.

 




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    • É, isso existe também. Gente que, por puro deleite, gosta de ver que os que estão no fundo do poço continuem lá. Obrigado pelo comentário e pela visita. Abraço.

  1. Triste daqueles que gostam de aplaudir quando um novo membro se une aos demais no fundo do.poço. Mal sabem eles que o cascalho da borda é escorregadio e que um dia podem estar lá também.

  2.     
                        
              
            
                

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