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5 de janeiro de 2019

As avestruzes

Alguns anos depois de seu conturbado namoro, Elisa e Ricardo se reencontraram nas redes sociais e resolveram experimentar novas condições para um relacionamento mais harmonioso. Vamos contar mentiras, um propôs ao outro. Animados com a possibilidade, tornaram-se assíduos em postagens e comentários. Eu me chamo Cris, escreveu ela. Eu sou o Alex. Olá, Cris, bom dia pra você, devolveu ele, e ambos riam com muitos kkkkk e eloquentes emojis. Deixaram para trás as desavenças e desencontros e mergulharam na mentira online. O contato virtual entre eles cresceu como a lua cheia. Mentiram apaixonadamente um ao outro durante meses.

Trocaram fotos. Ela gostou do coque samurai dele. O novo desenho das sobrancelhas valorizou o seu rosto, elogiou ele. Ela publicou uma foto de biquíni na praia, ele comentou esse lugar parece um paraíso, tem até sereia, ela respondeu tudo é belo quando se olha com belos olhos. Ele postou imagens do churrasco com amigos, ela digitou assar carne no espeto é uma arte, e você é um artista, ele se derreteu e mandou um own! junto de uma carinha de olhar angelical. Ela não perdeu tempo e enviou inúmeras imagens fazendo biquinho, ele exclamou linda!, ele encheu a página com suas caras, bocas e pernas jogando futebol, ela se rasgou craque!, campeão!

Alex propôs um jantar, Cris aceitou. Um encontro de verdade, desses que de vez em quando costumam acontecer na vida real. Até a noite marcada, a ansiedade dominou o corpo e o pensamento dos dois, e as horas passaram lentas feito as nuvens do mês de agosto. Chegaram quase ao mesmo tempo à porta do restaurante. Tal a cena de um filme, foram se aproximando em câmera lenta — um close-up evidenciaria os olhos de um procurando, aflitos, os olhos do outro. Sucedeu o inevitável: como uma pétala que se desprende do coração de uma flor, como um trem que chega à estação sem apitar, como o medo de quem mergulha na escuridão silenciosa e sem grilos, como o espanto que paralisa os nervos do matador um segundo depois do crime, como a lágrima que escorre, impotente, diante da injustiça — assim, dessa maneira e não de outra, Cris voltou a ser Elisa e Alex, Ricardo.

Alegaram que tinham compromisso já assumido para aquela noite, esqueci de consultar a agenda, só vim aqui para avisar, não queria que você ficasse esperando, disseram quase ao mesmo tempo. Prometeram marcar novo encontro para outro dia. Despediram-se com um beijo no rosto e foram em direções contrárias, não sem outro propósito, não sem outra determinação que a de continuar mentindo.

 




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