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12 de dezembro de 2016

As borboletas azuis

Tenho uma mala onde vivem borboletas azuis. Nessa mesma mala já viveram animais diversos, de tamanhos e espécies várias, em períodos distintos de minha vida, mas borboletas é a primeira vez. Lembro-me de um coelho branco que morou na mala quando eu era adolescente e estudava no colégio. Não raro, manchava de urina meu uniforme e se divertia fazendo buracos em minhas meias com seus dentinhos afiados. Em outra ocasião tive um corvo como companhia; foi quando meu pai morreu e eu só via a cor negra para onde quer que olhasse. Esse corvo era peculiar: ficava horas longe de mim e, quando voltava para a minha maleta, sempre trazia no bico objetos inusitados: o retrato de um defunto do cemitério ou as letras douradas subtraídas de lápides abandonadas.

Algum tempo depois foi a vez de um leão se entrincheirar dentro da mala. Era a época em que eu estava na universidade, e esse bicho rugidor fazia grande confusão com minhas roupas íntimas e minhas camisetas, e em tudo deixava seu cheiro de macho, como a marcar território. O lugar do leão foi ocupado, anos mais tarde, por um lobo cujos uivos não me deixavam dormir. Foi justo quando me casei e sofri muito com seus caninos pontiagudos e sua raiva quase incontrolável. Quando me aposentei, tive como companheira uma tartaruga centenária. Dentro do exíguo espaço da mala ela se mantinha serena e paciente, ordenando minhas roupas segundo o Feng Shui, contribuindo para estabelecer o equilíbrio yin e yang entre camisas e calças, cuecas e meias. Uma tartaruga zen, que trouxe muita tranquilidade para o meu espírito. E agora há essas borboletas azuis.

Hoje descobri que elas são ótima companhia para quem quer alcançar a paz, a resignação. Além disso, como são bonitas! Esta noite voaram sem pressa até minha cama e pousaram sobre meu peito. Suas asas são leves e, quando se movimentam, produzem uma brisa fresca e delicada em meu rosto. Hoje elas se aproximaram de meus ouvidos e me sussurraram um segredo. Ouvi o que disseram e engoli o espanto enquanto acompanhava suas asas azuladas criando desenhos pequeninos no ar à minha frente. No minuto seguinte, sem que eu pudesse evitar, minha cabeça se desgrudou do pescoço e pendeu travesseiro abaixo. Eu ainda estava com os olhos abertos e pude ver, através do vidro da janela, a Parca chamar suas mensageiras azuladas com um assovio quase inaudível.

Elas voaram para longe de mim e minha mala ficou, afinal, vazia.

 




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