Close

29 de março de 2016

As coincidências

dentaduraÉ em coincidências assim que a vida ganha mais cor. Ganha mais – o quê? – jovialidade, frescor, vitalidade, ânimo, eletricidade, doces espantos, sobressaltos, alguns desassossegos, perigosas inquietações. Celina, no princípio, gostou muito dessa coincidência. Depois, não. Coincidiu que ele entrou no mesmo vagão quase vazio em que ela estava. Ela iria descer dali a três estações. Ele entrou molhado, certamente se esquecera do guarda-chuva quando saíra para trabalhar naquela manhã. A água escorria do cabelo preto e descia pela testa protuberante, ele passava a mão para enxugar. Olhou para Celina e sorriu com um leve aceno de cabeça. Ela devolveu o cumprimento e voltou os olhos e a memória para a janela.

A memória de Celina estava agora repleta de dias ensolarados na praia, quando os adolescentes conversavam e riam despreocupados, sentados na areia. Ele também ria. Naquele tempo, debaixo do sol, se fartavam de maresia; à noite se embriagavam com o cheiro adocicado dos hormônios em constante festa. E hoje, justo agora, ele está aí, a poucos metros, molhado, cumprimentando-a com um aceno de cabeça. Os mesmos olhos, o mesmo sorriso, o mesmo cabelo preto – tudo o que a persegue há quarenta anos e quase não a deixa dormir.

O trem parou na estação e Celina desceu, nervosa e apressada como uma adolescente. Ele ainda a olhou uma última vez, antes que as portas se fechassem. O trem seguiu caminho. Celina fez o mesmo, com passos miúdos, na direção de seu prédio. Andava como se fugisse de alguém, tentando a todo custo apagar da memória os olhos e o sorriso daquele que poderia ter sido o homem de sua vida e os olhos e o sorriso deste que tinha idade para ser seu filho.

Foi caminhando trôpega até o elevador, apoiada na bengala. Entrou em casa e tropeçou no tapete, quebrou o salto do sapato, a maquiagem derreteu, os cabelos brancos despencaram sobre seu rosto. Celina se jogou no sofá até a respiração voltar ao normal. Depois, com vagar, foi para o quarto e mergulhou no copo d’água a alma, as ilusões, a solidão e a dentadura postiça.

 




Tags:,

29 de março de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos coincidência, memória

              
            
  1.     
                        
              
            
                

Deixe um comentário