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6 de junho de 2018

As donzelas mortas

Nesses tempos de agora já não há quase ninguém em Santa Helena. O mato cresce e ninguém poda. Só os velhos permanecem na cidade, fiéis a seu trabalho diário de enterrar donzelas. Muitos anos se passaram desde que sepultaram a primeira, e ainda hoje as mãos deles tremem quando amortalham o corpo intocado e tapam o rosto fresco e sem mácula. Antes, era a esposa deles quem se encarregava desses rituais delicados, mas já faz tempo que as mulheres deixaram o povoado. Umas poucas tinham morrido, as outras decidiram abandonar o marido que tão pouca atenção dava a elas. Foram embora numa madrugada quente, sem levar qualquer pertence, praguejando contra aquela monstruosa árvore de galhos cor de púrpura que um dia surgiu no centro da cidade, ninguém sabe dizer como. A mesma árvore de cujos galhos continua brotando, em cada amanhecer, uma preciosa donzela morta.

Um dia não haverá mais ninguém para fazer esse trabalho. E Santa Helena será conhecida como a cidade-cemitério, em que as donzelas jazem insepultas em cada canto. Uma cidade morta, povoada por gente morta, governada por ninguém.

 




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6 de junho de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos cemitério, cidade, donzela, morta, velhos

               
              
            
                

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