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4 de abril de 2017

As estações

Que Verão, que nada! O que desceu de forma inequívoca sobre o Congresso Nacional foi a Primavera. Suas Excelências acharam por bem substituir os sisudos trajes escuros por modelos mais arejados e joviais, de acordo com a encantadora estação. Afrouxaram o nó da gravata, as camisas tornaram-se coloridas, os mocassins sem meias passaram a ser o item preferido do guarda-roupa masculino e o paletó de muitos parlamentares não saiu mais do cabide. Não se sabe ao certo se foi o cheiro das flores no ar que alterou o humor de Suas Excelências, mas o fato é que agora eles conversam amigavelmente com os repórteres, não se esquivam de perguntas incômodas e até contam piadas, desde que não firam o decoro, que aí já seria demais.

Como era de se supor, o efeito primaveril foi mais visível nas mulheres da Casa, que aproveitaram a estação para ostentar figurinos mais ousados: uma saia dois dedos mais curta, cores vibrantes, um decote atrevido e até alguma transparência. Não há como não notar tantas mudanças. Um deputado da Esquerda Unida Jamais Será Vencida conversa animadamente com seu colega da Direita Marxista Arrependida, que eles, embora pertencentes a partidos antagônicos, são quase amigos na vida real — aquela que existe fora do Parlamento. Acontece que o ar fresco trazido pela Primavera é mesmo embriagador e não há ideologia ou ânimo exaltado que resista a ele; é natural, portanto, que os corações amoleçam e inimigos políticos troquem abraços e beijos. Um nojo. E esse homem da Direita, tão homem e tão de direita, não se furta a lançar olhares de tigre para o decote da Suplente que passou por ele ainda agora. Com certeza é uma Suplente da Esquerda, mas, vá lá, que quindinzinho! A Suplente lhe devolveu olhares de egípcia, que eriçaram os cabelos acaju do deputado-tigre.

Ao fim e ao cabo, todos sabem o que acontece com o sangue durante a Primavera, não importa a ideologia ou a cor partidária. Pelas grandes janelas do plenário é possível ver o sol abrindo-se em graças, aquecendo tudo o que há debaixo dele. E o deputado da Esquerda, tão maravilhosamente cioso de seu papel de esquerda, faz sinal ao encarregado da manutenção para que ajuste de imediato a temperatura do ar-condicionado, temos que garantir as boas e saudáveis condições de trabalho, que são uma conquista dos trabalhadores deste país, onde é que nós estamos? O calor aqui dentro está infernal, pelo amor de Deus!

Lá fora, do outro lado da redoma, os trabalhadores sem ar-condicionado e sem mais nada sentem na pele e nos ossos o rigor do Outono e intuem o que os espera quando o Inverno chegar.

 




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