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5 de agosto de 2015

As estátuas

estátuaTodos os dias, à mesma hora, aqueles dois esfregavam no rosto uma tinta branca. Cobriam as mãos com luvas igualmente brancas e apertavam seus brancos sapatos com cordões da mesma cor. Vestiam calças e camisas brancas e, por cima, colocavam o paletó também branco, ele, e uma capa de organdi e rendas brancas, ela. Como toque final, chapéu e lenço de seda para ele; sombrinha para ela: tudo imaculadamente branco.

Subiam no pedestal e ali permaneciam imóveis, recebendo os olhares admirados de quem passava pela praça. Ou a indiferença. Alteravam a posição dos braços e do pescoço quando percebiam que alguém depositava uma moeda no chapéu branco ao pé deles. Dia após dia, durante anos, essa foi a vida dos dois – e eram felizes assim, nesse branco total que os envolvia e lhes dava sentido.

Ontem passei pela praça e não os vi. No lugar de costume havia apenas um pedestal e, sobre ele, um homem-estátua de rosto negro, com negras luvas e sapatos igualmente negros. O paletó, o chapéu e o lenço de seda combinavam: negros. Não tenho certeza, mas acho que vi em sua bochecha negra uma lágrima branca descendo lentamente desde os negros olhos.

 




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5 de agosto de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos branco, estátua, negro

               
              
            
                

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