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30 de outubro de 2015

As horas passadas no parque

menino_balanco_estradaAs horas passadas no parque são as melhores, as mais agradáveis para Luiz Carlos. Sentado sempre no mesmo banco, ele gosta de observar as pessoas, seus hábitos, sua rotina, seus movimentos sempre repetidos e previsíveis. Luiz Carlos é um homem de aparência comum, moreno, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro; uma leve penugem sobre os lábios faz as vezes de bigode. Está sempre vestido de forma simples, para não chamar a atenção. Só observa o movimento ao seu redor e grava na memória o que vê. Seu rosto é impassível e não mostra reação nenhuma, mas se engana quem pensa que ele está absorto ou distraído. Não está.

Seu horário predileto é quando soam as cinco da tarde, e o parque se enche de crianças que saem do colégio. Todas elas chegam acompanhadas da mãe ou da avó, nunca pelo pai. Luiz Carlos gosta desse parque porque os pais nunca vão junto com as crianças. Os pais sempre se aborrecem com a conversa das mulheres e não têm paciência para brincar com os pequenos. Além disso, sempre olham em volta procurando outros homens com quem conversar sobre futebol ou política. Luiz Carlos não gosta de falar sobre esses assuntos e por isso prefere esse parque, em que só vão as mulheres e suas crianças. Ele adora esse parque, porque pode ficar em silêncio e observar o que acontece ao redor. A cada dia aprende uma coisa nova sobre os costumes das mulheres e das crianças que o frequentam. Os costumes das mulheres e os costumes das crianças – Luiz Carlos se sente feliz observando tudo isso.

Depois de várias semanas de observação, ele sabe que a mãe da garota ruiva – Glorinha, de cinco anos – é quem mais fala com as outras mães, e também a que mais deixa sua filha livre para brincar, sem muito controle. Luiz Carlos sabe também que Zelito e Fabiano, ambos com seis anos, não raro costumam contrariar o pedido da vovó para que fiquem por perto e se afastam dos adultos para brincar perto do bosque, onde há uma fonte barulhenta. Ali eles se sentam sob uma árvore e brincam de bolinha de gude. Luiz Carlos também não ignora o que cada criança come, qual delas gosta mais de legumes, qual mais de chocolate, e onde costumam brincar de esconde-esconde.

No inverno os dias escurecem mais cedo. Hoje, por exemplo, não são nem seis da tarde e a claridade do dia já está desaparecendo, substituída pela débil iluminação dos postes públicos. As mães e avós se preparam para voltar para casa com as crianças. Elas chamam os meninos em voz alta, avisando que é hora de deixarem o parque. Em poucos minutos o parque está vazio e resta só um menino que ainda brinca no balanço. Luiz Carlos se levanta do banco e vai rapidamente na direção dele. Fica na sua frente e interrompe o vaivém do brinquedo. O menino o olha, pula do assento e agarra a mão estendida de Luiz Carlos. É tarde, Marcelinho, a mamãe está nos esperando.

 




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30 de outubro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos menina, menino, parque

               
              
            
                

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