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28 de novembro de 2019

As mãos fortes

Eram poucos os que tinham instrumentos para a lavoura. A maioria dos que labutavam no campo usava as mãos, elas mesmas, nuas, para fazer o trabalho. Grandes e fortes, arrancavam as ervas daninhas, abriam cavoucos para as sementes de milho, trigo e café, regavam os brotos. As mãos faziam ainda mais: se embrenhavam entre as ramas durante a colheita, tiravam pedras do leito dos rios para a construção de muros e casas, enredavam fibras e produziam sacos para os grãos, se enfiavam no barro para moldar tijolos para as igrejas e ruas. Brutas, eram mãos que não conheciam descanso e se faziam quase indestrutíveis como as rochas que rodeavam o vale.

As rochas, quando muito grandes, e as mãos, ainda que muitas, não lograssem removê-las para que ali instalassem um novo roçado, eram retiradas com dinamite. Numa dessas vezes, foram para o ar o estrondo, a poeira, as pedras e alguns braços. Recolham os pedaços, homens, depois a gente enterra — gritava tranquilamente o capataz, coçando com a mão direita o cotoco que tinha no lado esquerdo. Recolham, isso não foi nada, se perdeu uma mão tem a outra, e amanhã já poderá trabalhar de novo.

Tão fortes eram as mãos, e tão conhecida era essa força, que os homens tinham medo de usar o punho fechado para o que quer que fosse, até para brigarem entre si. As mãos abertas serviam para cumprimentar, mostrar lealdade ao patrão e castigar. De maneira tosca, aquelas mãos davam amor e às vezes também a morte, ambas as coisas com violência e quase sempre em silêncio. As mulheres também silenciavam.

 




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    • Obrigado, Lourença. Venha há tempos praticando a síntese. Às vezes acerto, outras vezes não. É um eterno aprendizado. Obrigado pela visita ao blog. Abraço.

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