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26 de maio de 2015

As muitas mortes de Francisca

francisca

Francisca morreu ontem.

Quando morre Francisca, não é só Francisca, ela própria, quem morre. Morre a filha de Antonio e Adelina. E a irmã de Joaquim. E a melhor amiga de Luísa, a companheira de passeios pelo parque quando era verão e o sol demorava a se pôr. Morrem também, quando Francisca morre, a amiga de Heloísa, a de Joana, a de Zeca e a de Lucas. E morre a mulher por quem Júlio era apaixonado, a quem ele abraça em pensamento enquanto dorme e a quem nunca pôde dizer que amava.

Quando Francisca morre, morre também a mulher que todos os dias saía cedo para o trabalho e pegava o ônibus da linha 134, cujo motorista, Celso, sorria largo quando a via no ponto, à espera da condução. Morrem também, quando morre Francisca, a operária que trabalhava na linha de montagem da fábrica de carros, a vizinha de cinco famílias do mesmo quarteirão, a tia de Vicente, a sobrinha de tio Ângelo e a paciente do dentista que atende pelo convênio.

Acontece, quando morre Francisca, um verdadeiro genocídio do qual a humanidade nunca se esquecerá. Os cadáveres e, mais que isso, a soma escandalosa de todas essas ausências, estão agora num caixão de tamanho médio, sobre o qual Adelina, sua mãe, chora sem consolo. Ali dentro estão Francisca e todas as mortes de Francisca. Mas não há, no mundo inteiro, espaço suficiente para conter tanta dor.

 




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26 de maio de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos Francisca, morte, mortes

              
            
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