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26 de abril de 2018

As nuvens

Desde que o marido saiu pra comprar cigarro e nunca mais deu as caras, Jurema logo cedo dá um prato de caldo ralo com macarrão e um pedaço de pão duro pra cada um. Pendura o menorzinho nas costas e sai pra fazer o dia, arrumar um troco e alguma coisa pra comer na janta. Avisa pros dois maiores que não se afastem do barraco, não deem confiança pra estranho e não brinquem com os pedaços de cocô que volta e meia aparecem boiando no córrego ao lado.

Jesus Roberto, o mais velho, e Suzy, dois anos mais nova, saem correndo para o descampado, dispostos a passarem o dia lá — a mãe não volta antes da noite. Fazem a brincadeira de todos os dias: saborear as nuvens que tentam pegar com as mãozinhas sujas. As espessas são as mais desejadas porque têm requeijão e se pode enfiar os dentes nelas com vontade. Há aquelas mais rosadas, com gosto de framboesa (eles nunca comeram uma framboesa, mas imaginam como é). Para sobremesa, algodão-doce sabor baunilha.

Ontem começou a temporada de chuva, e as nuvens, nessa época, ficam ainda mais suculentas e úmidas. Jesus e Suzy se empanturram com as mais gordas. À noite, Jurema os encontra tremendo, com a roupa empapada e a barriga inchada de tormenta. “Um dia isso explode”, pensa.

 




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26 de abril de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos barriga, chuva, nuvens

               
              
            
                

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