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12 de abril de 2019

As quatro bestas de Daniel

E quatro animais grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar.

Daniel, 7:3

 

Daniel dormiu e sonhou, e em seu sonho quatro bestas se levantam das profundezas do oceano e mostram as razões de todo o sofrimento da humanidade.

A primeira se chama Das K., uma besta voraz, onipresente. Tem grande ramificação, pode ser vista em qualquer sítio para onde se olhe. Embaixo da cama. Nos pesadelos. No angustiante consumo das horas de trabalho e de lazer. Na fome de todos os dias. Nas minas de carvão e de minérios. Nos telefones celulares. Nas caixas registradoras dos supermercados. Na linha de montagem das indústrias. Nos barracos sem esgoto. No jantar posto sobre a mesa. No cheiro de tudo o que é novo. No gesto dos suicidas quando se lançam de algum andar alto de um edifício, murmurando, desolados, Das K., enfim posso ver teus olhos sombrios, posso sentir o gelo dilacerante do teu beijo em minha carne, eu te odeio! Essa besta faz com que todos desejem o que não necessitam, e sofram por não conseguir. Está em cada espelho, em cada reflexo de vitrine, em todas as superfícies polidas ou opacas, em todas as xícaras de café tomadas com a barriga encostada no balcão do bar. É uma entidade incrivelmente flexível, tenaz e mentirosa. Engana. Seduz para arrancar a pele do crente. Transforma qualquer ser vivente em escravo de si próprio, em explorador da própria alma e da alma de todos aqueles que, por falta de sorte, rastejam em posição subalterna. Nas garras de Das K., todos são monstros e não se pode escapar de sua crueldade e do peso insuportável de seu nome.

Religare é o nome da segunda besta. Foi identificada nos tempos primórdios da humanidade por Karl Juan, famoso caçador de monstros. Ama a boa-fé e a pureza dos seres viventes e não raro atende pelos nomes Salvatis ou A Enganadora. Mais recentemente ganhou outro apelido: Amarradus, porque vocifera o adjetivo “tá amarrado” a todo aquele que ousa contrariar o que sua garganta vomita. Mutante, essa besta possui muitas faces, cada qual usada conforme a ocasião. Pode ser a idiota, também a maledicente, a fofoqueira, a astuta ou simplesmente a mentirosa. Vive de trocar de nome para confundir quem a vê quando, no raiar do dia, ela se levanta e estende suas garras sobre a cidade. Eu sou a Religare. Eu sou a Religare, repete, com a língua amarela dançando nos lábios vermelhos de sangue, e existo. Eu sou a Religare e você não vive sem mim, e seus olhos esquadrinham os rincões mais distantes do planeta à procura de vítimas, enquanto decide com que cara se apresentará hoje para o apetite insaciável de seus adoradores. Há alguns séculos se irmanou com a besta Das K., e hoje são inseparáveis. Monstros quase gêmeos, revezam-se nos ataques a seu alvo predileto: a alma de todo ser que se move sobre a face da Terra. A fome dessas duas bestas não conhece limite.

Não menos insidiosa e lúgubre é a terceira besta vista por Daniel, que recebeu o nome de Silêncio. Não emite som algum, não fala nunca de si ou dos seus. Mantém a boca cerrada e os olhos atentos. Hipnotiza e engana os caçadores de monstros, distrai sua atenção, obriga-os a olharem para o outro lado, compra sua alma, suborna seus propósitos, concede-lhes faustosas mansões repletas de vazio. Quando eles, por algum insuspeito motivo, resistem à adulação assassina, a besta os persegue, os acossa, os calunia. Faz com que desapareçam, sejam sepultados, torturados, aniquilados. O Silêncio é um monstro covarde.

E das águas surge finalmente a quarta besta, uma aberração chamada Futuro, que ludibria seus inimigos com a ilusão do falso, do porvir, do dia que virá, e os impede de ver os horrores e os desastres do agora, a miséria do momento presente. Para esse monstro, nada do que acontece hoje é interessante ou digno de consideração, porque é no amanhã que os olhos de todos devem estar postos, e o amanhã não tarda. Sofra hoje e, se não morrer de doença ou tiro, amanhã você sorrirá, é a máxima dessa besta chamada Futuro, em cujos chifres muita gente se agarra e implora por uma chance de sobreviver.

Daniel gastou muitas horas olhando o céu e pensando no sonho que tinha acabado de ter com as quatro bestas. Estava aterrorizado e muito triste. Chorou muito até conseguir pegar no sono novamente.

 




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