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25 de março de 2017

As recordações

Quando o velho Irineu estende os olhos e mira o horizonte, todos em volta dele já sabem: são as recordações. Sabem também que ele logo ficará com os olhos úmidos, o beiço trêmulo, as mãos sobre as pernas mortas, a garganta sem voz que se ouça. E que descerá o choro sentido, de cortar o coração. Cada um pretexta algo urgente a fazer e o velho fica sozinho, refém da tristeza.

Para essas ocasiões, tenho sempre um lenço à mão e alguma palavra doce para confortar meu avô. Peço com suavidade que ele esqueça o acidente que o pôs nessa cadeira de rodas, e que ainda há vida para ser vivida. Seco suas lágrimas e vejo gratidão em seus olhos.

Ainda agora minha mãe e a vó Marta vieram me acordar. Teu avô agoniza, não passa desta noite, me dizem as duas, emocionadas. Ele está definhando de tristeza. Em poucas horas estará aqui junto de nós três.

Faça uma boa viagem, vô Irineu.

 




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25 de março de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos avô, recordações, tristeza

               
              
            
                

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