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24 de fevereiro de 2017

As tramas

Em Santa Helena a vida não acontece como a conhecemos. Quem chega a essa cidade de sonhos encontrará ruas estreitas feitas de pedras verdes, como um gramado estendido até onde é possível olhar. As casas são todas brancas e têm o mesmo tamanho e formato. É um cenário de aquarela — e não há impressão mais precisa para quem lá aporta. As janelas, muitas, permanecem sempre abertas para que o vento brinque com os fios de seda das cortinas. As crianças podem correr e se divertir sem medo pelas ruas e becos, as galinhas e as cabras vivem soltas e perambulam pelos jardins e praças da cidade. É quase sempre verão. Há um rio perto. Uma queda d’água cuida de sonorizar a redondeza. Poucos homens vivem na cidade, só estão ali os pequenos e os velhos. E as mulheres.

As mulheres de Santa Helena tecem colchas, almofadas, mantas e toalhas de texturas e fios variados. Usam cores vibrantes e luminosas. Passam os dias enredadas em tramas de seda, algodão e cetim, criando mosaicos multicoloridos. Embalam o trabalho com melodias que elas mesmas inventam. Costumam ser muito bonitas essas mulheres e isso atrai forasteiros de todas as regiões, que param em Santa Helena para reporem as forças e para que seus animais descansem antes de seguirem viagem até o litoral. Com homens de fora perambulando pelas ruas e becos, o peito das mulheres se alvoroça e elas ficam agitadas e nervosas. Unem-se todas na cantoria de sereia que atravessa as paredes e ganha o espaço. Esmeram-se no preparo das mais saborosas comidas, lavam-se e soltam as longas tranças cacheadas. A vida se renova na cidade de sonhos e de longe se sente o perfume da fertilidade.

Alguns homens, porém, temem pernoitar em Santa Helena. Há lendas e medos pairando no ar e nos olhos de quase todos eles. As camas das casas estão cobertas por lençóis e colchas de tramas delicadas, e as histórias que se espalharam desde tempos imemoriais contam que, quando as mulheres de Santa Helena envolvem os amantes nos fios sedosos que adornam as alcovas, seus corpos ficam presos para sempre lá, transformados em desenhos de aquarela impressos nos tecidos. Esse é o destino dos homens que se arriscam a passar a noite em Santa Helena.

 




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