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10 de junho de 2019

Aurora e o sujeito sentimental

Arre, que não teve jeito! Nunca tem. Mente quem diz que tem.

O chefe da Polícia Federal fala ao assistente sem tirar os olhos do cadáver: Providencie o traslado do corpo do Pestana para a cidade dos pais. Já assinei o documento. Caso encerrado. Ele trabalhou bem, cagou no final. Otário! Mulher, sabe como é…

Quando não tinha mulher no meio, Pestana era ágil, resolvia tudo num dois por três. Levou poucos meses para investigar e explodir as entranhas do tráfico. Belo Horizonte, Recife, Cuiabá, Rio de Janeiro, morava mais em avião do que em sua casa. Trabalhou bem. Era quase invisível e conseguiu se infiltrar. Tudo fácil, até que ela apareceu. Ruiva, cabeleira ondulada, igual à moça do gibi. Pestana percebeu o tipo, a malemolência. A boca. O olhar. O cheiro. E um nome matador, Aurora, que nunca mais sairia de sua cabeça. Soube que estava perdido. Ela prestou depoimento e o encarou como se perfurasse sua alma. Pestana se rendeu, era um idiota. Ruiva esperta, nunca se deixou vincular com o tráfico, mas estava sempre por perto, pairando. Uma sombra difícil de agarrar.

Desbaratada a rede brasileira, foi a vez de investigar o braço internacional. Barcelona, Lisboa, Zurique, Londres. A sombra da ruiva também se espalhou por lá, escorregadia feito bagre. Pestana seguiu pistas, conferiu informações, foi atrás de supostos cúmplices. Nenhuma prova ainda.

Foram para a cama, no apartamento dela, e ele sabia onde estava se metendo. Numa distração da mulher, Vou ao banheiro me lavar, grampeou o telefone. Cadela, que pena, agora te peguei, pensou o Pestana. Não pegou. Ela descobriu o grampo, desativou, pintou o cabelo de preto e sumiu. Semanas sem saber dela, o Pestana quase ficando louco.

Em Barcelona, Pestana pensou tê-la visto na rua. Não era, mas podia ser. Foi pra cama com a desconhecida e percebeu que não era mesmo a outra: não tinha o piercing no clitóris nem o anjinho tatuado na nádega esquerda nem gritou Drácula! na hora de gozar. Deu dinheiro e dispensou a falsa.

Andou um tempo com medo. A Europa dava medo, tinha a barreira da língua, o frio que endurecia os ossos, a comida que parecia cimento e ninguém em quem confiar. E a solidão, essa cachorra. Queria voltar e se torrar sob o sol do Leblon. Recebeu notícia, ela foi vista numa balada em Copacabana. A ordem foi que voltasse correndo. Ele tomou o primeiro avião. De novo no Rio, recomeçou a perseguição. Maré, Rocinha, Alemão, Cidade de Deus, um sabonete chamado Aurora fazia muita espuma e desaparecia no ar como se nunca tivesse existido.

Até que um dia seus olhares se cruzaram de novo, e foi a penúltima vez. Flagrante, chamaram a televisão e os jornais: a ruiva, dólares e euros em dinheiro vivo, carregamento pesado de drogas, todos presos, ela também. Pestana pôs as algemas olhando para ela. Quinze anos no xilindró, quando sair vai estar velha. Pena. Assim que a poeira baixou, Pestana foi para casa descansar e esquecer.

Com a ajuda de um rábula vesgo, a ruiva conseguiu condicional e, de novo na rua, foi cobrar o prejuízo. Soube que o Pestana estava bebendo no Golden Deer, em Copa. Ele ainda não estava completamente bêbado quando ela entrou e o encarou. Essa, sim, foi a última vez que seus olhares se cruzaram. Ela sorriu, se aproximou, ficou juntinho dele e disparou cinco vezes com a automática. Saiu da boate sem ninguém impedir ou entender como.

Pestana respirou uns dias por uma máquina. As agulhas nas veias providenciaram alimento e sobrevivência. Quis morrer, não agonizar. Quis morrer com o olhar da ruiva mordendo seus olhos, balançando a cabeleira como a moça do gibi. Morreu sem isso.

O chefe da Polícia Federal entrega o documento ao assistente: O Pestana disse que queria ser enterrado na cidade onde nasceu. Coisa de sujeito sentimental. Despacha o corpo pra lá, anda. Alguma pista da Aurora?

 




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